Gambiólogos: a gambiarra nos tempos do digital

Nule die sine linea.
Capa do catálogo da exposição / Design: Fred Paulino e Xande Perocco

O futuro é precário, não há dúvida. Entre previsões pessimistas de Blade Runner e cômico-otimistas nos Jetsons, por pouco a ficção científica não acerta em cheio. Mas ao invés de veículos voadores, temos a informação lasciva nas redes sociais e no lugar das cidades suspensas, tratados ecológicos não cumpridos. Não há robôs serviçais, mas nós mesmos.

Chegamos em 2010 e não há nada mais natural que a Gambiologia — a ciência do improviso aliada às técnicas eletrônico-digitais. É a celebração da gambiarra por postura crítica, pela ausência de recursos ou simplesmente como opção estética. E a tecnologia, por vício ou como combustível — e porque não há mais volta. A gambiarra é uma forma de hackeamento e também uma atitude política.

Esta exposição apresenta uma seleção de obras em que o deslocamento funcional, a reciclagem, a valorização do obsoleto, o uso de materiais alternativos e uma outra maneira de se pensar a tecnologia materializam-se em formas mutantes, plurais e provocativas. Há aqui um rompimento dos limites entre o industrial e o artesanal, a arte e o design, o artífice e o curador. Formas de arte que alimentam-se dos próprios restos, os deglutem e nos jogam de volta. Gambiarras dos mais diversos graus de improviso e com decrescentes níveis de tecnologia.

Do refinamento estético de Vogel aos excessos do Gambiociclo. Do funcionalismo high/lowtech do Eyewriter a prismas iluminados. Da sutileza de taças de cristal e gotas d’água projetadas a um polvo gigante e (des)afinado. Uma câmera de vigilância que perde foco e função. Eletrodomésticos que ganham vida, balançam: seres de sobrenome Arduino. Sons que vêm do papelão, da madeira, da luz. A irreverência de um encontro entre furadeiras e um relógio esquisito, mas genial. Ferro líquido amplificando ruídos de uma sociedade fluida. Será o futuro infinitamente hightech ou simplesmente uma celebração da obsolescência?

“Nós éramos xifópagos. Quási chegamos a ser deródimos. Fomos antropófagos. Agora somos gambiólogos”.


(Texto publicado como apresentação curatorial da exposição “Gambiólogos”, realizada em Belo Horizonte, Brasil, 2010)