A violência contra as travestis é também reflexo da pobreza

Janeiro é o mês em que se comemora no Brasil o dia nacional da visibilidade trans. O dia 29 de janeiro é celebrado desde 2004, quando o Ministério da Saúde, em conjunto com entidades da sociedade civil, lançou a campanha “Travesti e respeito” em reconhecimento à dignidade dessa população. É por isso que a Freeda: espaços de diversidade decidiu dedicar esse mês para publicar textos e notícias relacionadas às travestilidades e transexualidades brasileiras. O primeiro post desse mês também inaugura uma nova coluna mensal do blog.

Campanha #somostodasverônica, em alusão à violência policial cometida contra Verônica Bolina em abril em São Paulo. O Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo todo.

O tema desse mês foi escolhido em decorrência da escassez de debates públicos em relação às condições concretas de vida das travestis no Brasil. Se realizarmos uma pesquisa simples na Internet usando a palavra “travesti”, perceberemos que a imensa maioria das notícias está associada ao crime (cometido por elas ou que as submete à violência), à marginalidade e ao mercado sexual. No entanto, esses conceitos de crime, violência, marginalidade/periferia e prostituição dificilmente são conectados com a discussão sobre condições sociais de vida ou sobre pobreza, tendo por horizonte que a sociedade parece sempre preocupada em produzir sentidos sobre questões trans, mas sentidos colonizadores. Acontece que frequentemente sua preocupação está em tornar exóticas essas pessoas e por isso deseja saber muito mais sobre identidades e pouco ou quase nada sobre demandas sociais e interesses políticos dessa população.

Contraditoriamente, a realidade social vem demonstrando que precisa debater a vida miúda das travestis, as suas vidas materiais. O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo todo, enquanto o México, em segundo lugar, tem a metade desses crimes (TGEU, 2015). No nosso país a grande maioria das travestis são pobres (Pelúcio, 2006), experimentando a pobreza na infância e muitas vezes durante toda a vida (Kulick, 2008). É fácil, por isso, conectar esse contexto de morte e de violência à noção de vida precária, uma vez que essa é a realidade de vida dos extratos mais pobres da sociedade brasileira e dos quais as travestis muitas vezes pertencem (Carrara e Vianna, 2006).

A transfobia experimentada pelas travestis brasileiras é, assim, uma violência em si intersecional. Dizemos isso porque entendemos que ela é produzida não apenas a partir de um ideal “de gênero” (porque as travestis “subverteriam as normas de gênero” ou porque transitam/desestabilizam aquilo que o conjunto da sociedade acredita ser uma norma, e que podemos nomear de cisnormatividade*), mas também porque as travestis que morrem no Brasil têm raça/etnia e tem classe social muito bem definidas. Grande parte das vezes são aquelas que se prostituem, que vivem na periferia e que são lidas socialmente como não-brancas, construindo, assim, uma estética passível de extermínio, cuja vida precária (Butler, 2006; 2010) não merece ter seu luto chorado e cuja qualidade vale menos no processo de produção e reprodução da sociedade.


Nós da Freeda sugerimos alguns documentários e textos que consideramos importantes para esse debate. Dá uma conferida!

Filmes

Amanda e Monick (2008), de André da Costa

Favela Gay (2014), de Rodrigo Felha

Homens (2008), de Lucia Caus e Bertrand Lira

Madame Satã (2002), de Karim Aïnouz

Translatina (2010), de Felipe Degregori

Textos

‘Gay da favela não usufrui de avanços. Ainda estamos lutando pela vida’, diz ativista transexual (BBC Brasil, 2015)

El Teje, periódico travesti latino-americano (seis edições)

Referências utilizadas

BUTLER, Judith. Vida precaria: el poder del duelo y la violencia. Buenos Aires: Paidós, 2006.

BUTLER, Judith. Marcos de guerra: las vidas lloradas. Buenos Aires: Paidós, 2010.

CARRARA, Sérgio; VIANNA, Adriana R. B. “Tá lá o corpo estendido no chão…”: a violência letal contra travestis no município do Rio de Janeiro. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 16, n. 2, p. 233–249, ago./dez. 2006.

JESUS, Jaqueline Gomes de. Identidades de gênero e políticas de afirmação identitária. In: VI CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESTUDOS SOBRE A DIVERSIDADE SEXUAL E DE GÊNERO, 2012, Salvador. Anais eletrônicos. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2012, p. 1–15.

KULICK, Don. Travesti: prostituição, sexo, gênero e cultura no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2008.

PELÚCIO, Larissa. Abjeção e desejo: uma etnografia travesti sobre o modelo preventivo de aids. São Paulo: Annablume, 2006.

PRECIADO, Paul B. Manifiesto contra-sexual: prácticas subversivas de identidad sexual. Madri: Opera Prima, 2002.

TRANSGENDER EUROPE — TGEU. Trans murder moritoring (TMM) idahot update 2015. Disponível em: <http://tgeu.org/tmm-idahot-update-2015/>. Acesso em: 3 dez. 2015.

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* O termo “cis” se refere às pessoas cujas identidades concordam com aquela designada no momento do nascimento (Jesus, 2012). A norma cis, portanto, é aquela que pretende estabelecer como natural/normal a concordância com o gênero designado no nascimento, quer dizer, que a célebre frase “é um menino” dita pelo médico e que estabelece o gênero no campo do discurso (Preciado, 2002), seja aceita pelo sujeito que lhe é destinada.