O que a gente faz por um sonho?

(esse post contém uma playlist no Spotify!)

Este é um exemplo de foto sem enquadramento.

Não, essa não é uma história poética sobre um roteiro fantástico. É só mais um relato cheio de tretas de uma pessoa adulta super mal resolvida vivendo no pior inverno da história da costa Oeste.

Estados Unidos da América.
Esse nunca foi o destino dos meus sonhos. Meus desejos nunca passaram de Vegas, Hollywood e Times Square no Ano Novo. Assim, lugares bem específicos mesmo.
De uns 4 anos pra cá botei na cabeça que queria ver a bola descer.
Me imaginava naquela contagem regressiva durante as situações mais inusitadas do dia-a-dia. No dentista, fechava o olho e via a bola descendo… No engarrafamento, fechava o olho e imaginava que aquele transito todo era pra chegar até a Times Square… enfim.
De tanto abrir o olho e chorar de desespero por não ser real, decidi que era a hora de por o tal sonho em prática.

Tudo começou quando eu, meu namorado e meu melhor amigo decidimos mochilar pelos EUA. Após algumas reuniões para decidi roteiro, acomodação e todas essas coisas de viagem, percebi que meu namorado e meu melhor amigo não se entendiam muito bem… .
Era um silêncio ensurdecedor entre os encontros e eu naquela de Christina Rocha mediando um assunto que simplesmente não existia mais.

Só viajo se for todo mundo junto!

Começou o primeiro dilema:

Como vou viajar com duas pessoas que aparentemente não se suportam?

Essa pergunta atormentou minha cabeça durante semanas.
E eu me sentia culpada por toda aquela situação pois eu simplesmente desabafava com meu melhor amigo sobre as merdas que aconteciam no meu relacionamento, e contava pro meu namorado sobre as merdas que aconteciam na minha amizade.
Involuntariamente fiz duas pessoas que eu amo se odiarem e, com isso, compreendi que “cada um no seu quadrado” foi talvez a composição mais certa da história do funk contemporâneo.

Depois de tudo mais ou menos organizado e dividido para três pessoas, sinto meu amigo cada vez mais distante do assunto da viagem. Até que e em um belo dia chega a seguinte mensagem: “Vou fazer carreira solo.”
Ele desistiu.

Um vazio tomou conta do meu corpo, parecia que eu era feita de ar quente. Muito louca a sensação.
Fiquei imensamente triste pois: Taylor Swift acabara de lançar o magnifico “1989”, que seria trilha sonora da nossa viagem e fazer aquela EUAtrip sem o meu melhor amigo não seria tão legal assim, uma vez que nossa Eurotrip tinha sido a melhor experiência de nossas vidas.
Só que Dezembro estava chegando e com ele os preços absurdos de passagens aéreas, e para mim não fazia sentido viajar em Janeiro, Fevereiro... Tinha que ser em Dezembro, tinha que passar Natal e Ano Novo viajando. Então tinha que decidir logo.

Além de tudo, restava meu namorado, e quando fala que restava não falo sobre “restos”, mas sim de que eu não poderia ser tão egoísta a ponto de cancelar algo que construímos juntos por causa de uma desistência.
Então mesmo abatidos, pois minha tristeza contagiou ele, decidimos seguir com os planos.

“planos” hahahaaha

Até que numa sexta-feira navegando pelo SkyScanner na Universidade vi preços absurdamente baratos para Washington D.C.
O legal do Sky Scanner é que você só precisa definir o aeroporto de partida e colocar pra procurar o destino mais barato de qualquer lugar do mundo!
Além disso, ele também te dá o dia mais barato. E o dia mais barato para viajar pros EUA naquela semana seria no próximo Domingo.

PLAF! Comprei!

E logo depois me dei conta de que as passagens seriam pra DOIS dias depois, saindo de Recife (aproximadamente 290Km de onde eu moro), e que nós não tínhamos SEQUER sacado o dinheiro no banco… imagine você se nós tínhamos algum dólar no bolso? ha!

Bateu o desespero quando vi que eram quase 3 da tarde, hora em que os bancos fecham na merda do horário de verão, e que corríamos os risco de viajar sem UM PUTO NO BOLSO.
Meu namorado correu pra agência dele, no campus mesmo, e eu pedi um táxi pra minha agência que ficava uns 20 minutos dali.
Veja bem, se eu chegasse 10 minutos atrasada a agência já estaria fechada.
O maldito Taxi demorou tanto que acabei pegando um ônibus e, quando estou quase chegando no Shopping onde fica a minha agência, me liga o taxista dizendo que chegou e, sabendo que eu não estava lá, só não me chamou de santa!

Quando entrei na agência quase fiz xixi nas calças de tanto nervoso misturado com felicidade. Mal sabia eu que aquilo tinha sido só um teste pra selva em que eu tava me metendo… . A começar pelo apelo que tive de fazer pro banco liberar a quantidade de dinheiro que eu precisava (que era basicamente tudo que tinha na minha conta) e logo após meu namorado me ligar dizendo que a agência dele não liberou todo o dinheiro e que por causa disso ele foi CORRENDO (no sentido figurado mesmo) na outra agência pra pegar o resto. Ok, deu certo. Ufa, com a adrenalina a mil iniciamos uma busca por uma carteira de estudante internacional andando pela cidade com as mochilas cheia de grana, de agência em agência pra no final nenhuma emitir.

Eu me pergunto por que fomos atrás dessa carteira. Na Eurotrip levei uma que teve pouquíssima utilidade, então nem era um negocio tão urgente assim visto que ainda tínhamos que achar uma casa de câmbio pra trocar as Dilma. Mas adrenalina é foda. Você começa a fazer umas coisas sem sentido mesmo e quando vê tá cavando um buraco com as unhas. Coisa de loko!

Ok, casa e cama que os próximos dois dias seriam exaustivos. Mas quem diabos consegue dormir sabendo que depois de amanhã estará viajando?

Sábado bem cedo fui atrás de uma casa de câmbio pra trocar a grana. Com tudo certo, voltei pra casa e finalmente arrumei “as malas”. Levei uma mochila e uma mala de mão de rodinhas, cortesia da HBS (empresa pra qual trabalhei na copa que me deu roupas suficiente pra uma vida). Sem muito o que colocar dentro: levei uma de calça jeans, dois casacos também da HBS, e meu tênis.
Embora as roupas la fora sejam muito baratas, eu não pretendia comprar nada além de um casaco de frio pesado, meias de futuro e uma calça nova.
Até que, ao chegar no Aeroporto, me dou conta de que coloquei o tênis na mochila sem as palmilhas pois como íamos primeiro pegar um busão pra Recife, fui de chinelo e acabei nem conferindo o tênis.
Quem no mundo confere se a palmilha tá dentro do tênis?
Ok, teria então que comprar ao menos uma palmilha.

Mas aí eu lembrei da minha ultima viagem internacional, onde a TAM nos deu um kit bem legal que continha escova e pasta de dentes, meias de futuro e mais uns cacarecos. Meias estas que eu poderia usar com o tênis sem palmilha até arranjar uma.

Só que nós não viajamos de TAM dessa vez.

E aí começam minhas terríveis 14 horas de voo pela American Airlines. Primeiramente, nós estávamos dentro de um avião comum, de voo doméstico. Eu não sei explicar o qual ruim aquele avião era, mas era um Airbus tipo esses da Gol. Só que pior. Era tão cagado que nem tirei foto dentro do avião pra ostentar.
Nós ainda fomos na saída de emergência, não tinha tela individual e a compartilhada que tinha na nossa frente estava quebrada. =)
Tentei sintonizar no rádio, não consegui. Pedi outro fone. Mas o problema não era no fone, era no rádio mesmo.
A diversão da viagem foi reparar nos trejeitos e na conversa das duas comissárias que de vez em quando sentavam de frente pra gente (na decolagem, no pouso e nas turbulências — que foram várias).
Uma parecia com o que a Britney Spears será daqui uns 20 anos e a outra nem lembro. Eu simplesmente não conseguia tirar os olhos da Britney até ela reparar e começar a falar com a mão na boca.

exatamente assim.

Meu namorado incrivelmente dormiu a maior parte da viagem e achou tudo aquilo “nada de mais”. Era sua primeira viagem de avião. E é isso que a falta de parâmetros faz com o homem.
Eu no lugar dele nunca mais entraria num avião.

Aterrizamos, lá estávamos nós na terra do Tio Sam.
Depois de responder as mesmas coisas umas 17 vezes pra uma alfândega furiosa, aproveitamos nossas 6 horas de conexão em Miami visitando a loja do Romero Brito e decidindo com o que íamos gastar nosso primeiro dólar.

Preferimos economizar.

essa é a cara dele quando ouve a palavra “economizar”. (Aeroporto de Miami)

Aí chegou a hora de embarcar pra D.C., já estava tudo aparentemente uma merda, já estava usando um tênis sem palmilha, então tudo que viesse era lucro.

E foi!

Você deve estar pensando que saímos do Brasil com um quarto reservado, certo?
Errado.

Eu tinha conversado com um cara no Airbnb quando ainda eramos três. O tempo acabou passando e eu fiquei me confiando nesse cara, que poderia tranquilamente ter locado o quarto pra outra pessoa.
Mas Deus é conosco.
Ao desembarcar em D.C. consegui contato com o cara e o quarto ainda estava disponível, mas eu tinha que chegar na casa às 14 horas pra fazer o pagamento já que eu não tinha cartão pra pagar pelo site.

Era meio dia e então decidimos ir logo pra casa. O Maps do meu Lumia 520 indicava que o endereço ficava cerca de uns 30 minutos a pé da estação que deveríamos descer, então tivemos a brilhante ideia de ir andando.

Ao sair do trem tivemos o primeiro choque: O lado de fora estava mais frio do que o lado de dentro.
E eu, com meus tênis sem palmilha, parecia estar pisando no chão descalça. Mas tranquilho, fazia uns 13 graus, era até bem gostosinho.

Quando de repente veio o segundo choque: Um esquilo!

Estávamos num bairro típico, chocados com as casas sem muros, jornais nas portas e esquilos carregando nozes. Todos aqueles clichês acontecendo diante dos nossos olhos. Pessoas idosas passeavam com seus cães e desejavam boa tarde pra gente, que chocados continuávamos andando no que parecia ser uma avenida principal. Quando de repente deu 13 horas, 13:30… e aquelas casas todas iguais, nenhum ponto de referência…
Estávamos mais perdidos do que o José Serra num domingo na Av. Paulista.
Só mais tarde daríamos conta de que já estávamos em Alexandria, a tal cidade vizinha.
Mas enquanto isso não aconteceu, continuamos perdidos procurando não mais a casa mas alguma estação de ônibus que nos levasse até a tal Alexandria.

tudo muito lindo mas…. ????

Enfim achamos outra estação de trem que tinha umas paradas de ônibus também e então pegamos um ônibus naquele maior estilo turista perdido.

-Quanto é a passagem?
-ajsnasçnkl CARD
-but we don’t…
-ahsndad get up!
-ok.

E ficou aquela coisa, né?
O negocio andando e eu acompanhando pela bolinha do Maps, tentando calcular o delay do mapa pra tentar descer num lugar mais ou menos próximo. Até que uma querida moça ouviu nossa conversa e disse “é a próxima.”
Então pedimos parada, mas a porta não abriu até o motorista no ônibus já claramente puto com a gente gritar “PUSH!”, e meu namorado dar um chutão na porta (pois estávamos segurando as bolsas) e então descermos.
Você deve imaginar a cara do pessoal dentro do ônibus olhando pra nós.

Começamos a caçada pela casa, a essa altura já era umas 14:30, e depois de dar muitas voltas pelas redondezas -ainda chocados com o cenário de filme- avistamos um rapaz na porta de uma casa. Só podia ser ele.
Um fofo, super reservado, que nos levou ao nosso quarto e mostrou tudo educadamente, sem deixar transparecer que nós tínhamos o atrasado em pelo menos 1 hora em seu compromisso. O rapaz ainda nos deu uma carona até um supermercado perto, onde passamos ali um o segundo momento mais constrangedor da viagem até então, pois ele também entrou no supermercado e durante nossas compras nós nos cruzamos diversas vezes e trocamos um “olá” como se não nos conhecêssemos???? Por que diabos o homem não quis fazer compras com a gente??
É o que pensam duas cabeças brasileirinhas que acabam de aterrizar numa cultura totalmente diferente. Realmente esses EUA não são muitos chegados no nosso estilo de amizade não.

Esta é a casa. (O que são esses postes de tronco, né?? *-*)

E aí começa de verdade nossa vivência nessa cidadezinha maravilhosa chamada Alexandria. Ficamos uma semana nesse lugar, mas foi tudo tão intenso que parece que moramos meses. Foi nessa casa que eu assisti o especial de Natal do Michael Bublé com participação da Vila Sésamo (mal sabia eu que ouviria Michael Bublé pelo menos mais umas 500 vezes durante o Natal).
Decidimos até abrir a nossa conta no branco de lá pra ter um laço afetivo com o lugar. Fomos exageradamente bem atendidos no banco, o Wells Fargo, que mesmo sabendo que cancelaríamos nossa conta dali três meses fez de tudo para nos oferecer todas as vantagens de um sócio. Foi tudo absurdamente seguro e talvez a melhor atitude que nós tenhamos tomado para economizar dinheiro.

Anestesiados com o atendimento, decidimos comemorar nossa conquista num restaurante chinês que ficava na mesma galeria. O lugar era muito bem arrumado mas tinha poucas mesas, o lance deles era mais delivery.
Meu namorado, mão de vaca como é, não pediu nada pra beber.
E aí já começa mais outro constrangimento… lá vem a mulher com água da torneira pra ele. Eu já sentia meu rosto queimando de vergonha. Até chegar a tal sopa de camarões que pedi, que veio com camarões realmente gigantes, mas a porra da sopa era de CLARA DE OVO!
Não era clara em neve não, nem misturada com alguma coisa, eram camarões mergulhados em claras de ovos crús. Somente.
Você sabe com que clara de ovo se parece, né? Minha cabeça suja me fez pensar nisso o tempo todo.
Eu não ia tomar uma sopa de esperma, desculpa.
Mas meu namorado tomou, e pra mim sobrou o chá gelado que eu tinha pedido. O negocio vem num GALÃO de quase um litro de chá.

É tipo uma tapware com um canudo, mais ou menos

Sei lá do que era. Como foi feito e por que ele vem numa tapware. Só sei que era delicioso e barato. Pena que fomos ignorantes o bastante para deixarmos 1 dólar de gorjeta, fazendo com que eu não quisesse mais pisar no lugar, de tanta vergonha.

Por aqui eu vou encerrando a primeira parte dessa história prometendo altas aventuras e confusões da pesada no próximo post, onde contarei como é tentar ser um Nova Iorquino durante três meses…

…e falhar.