Se todos os dias te fizesse a mesma pergunta, chateavas-te?

Memento (2000) — Realização: Christopher Nolan
Elenco: Guy Pearce, Carrie-Anne Moss, Joe Pantoliano
Género: Neo-Noir, Mistério, Thriller
Classificação Freeze: 8/10

Memento é um daqueles filmes em que é indiferente escrever (ou não) com spoilers. Inspirado no conto Memento Mori de Jonathan Nolan, é um bom exemplo cinematográfico para distinguir enredo de história e provar que até o conto mais simples se pode transformar num filme extraordinário. A sua narrativa complexa e fragmentada faz com que o público se questione constantemente e nunca perca o interesse pelo desenrolar da acção, mesmo que isso implique rever o dia-a-dia do personagem vezes sem conta.

Conhecido por ser um filme virado do avesso, Memento traça-nos a vida quotidiana de Leonard, um homem que vive à base de memorandos e com um único objectivo: descobrir quem assassinou a sua mulher. Leonard sofre de amnésia anterógrada que o impede de criar novas memórias e, por conseguinte, dificulta a sua missão. Ao contrário de outros filmes do género, o personagem não perde a sua identidade, e a estrutura fragmentária e não-linear do filme ajuda a reflectir a natureza ininterrupta e confusa de um portador do síndrome.

A narrativa apresenta-se dividida em duas linhas temporais: uma a preto-e-branco, cronologicamente correcta e que simboliza a história; outra colorida e cronologicamente invertida que cria o enredo. Como se não bastasse, para dificultar (ou clarificar) a análise do público, estas linhas temporais alternam entre si e repetem-se parcialmente. Este método criativo de storytelling fez com que Memento recebesse bastantes elogios aquando a sua estreia e tornou-o mundialmente conhecido. Para além disso, permitiu que Nolan brincasse com as percepções das personagens: se no início as suas motivações pareciam claras, no final são bastante complexas e subjectivas.

Até à data, Memento é considerado um dos grandes quebra-cabeças do cinema uma vez que, apesar de começar pelo final, apresenta um desfecho ambíguo e surpreendente. Um verdadeiro twist que reduz todas as perguntas do público a apenas uma. É um filme susceptível a várias interpretações e não há nenhuma teoria confirmada sobre o seu final. Há duas, em particular, que se destacam, mas Christopher Nolan chegou inclusivamente a defender ambas, deixando que o público escolhesse aquela que mais o satisfizesse mentalmente. Público esse que é, assaz vezes, colocado na pele do personagem principal e é obrigado a escolher um dos lados. Mas tal como é dito por Leonard no filme, as memórias podem sempre ser distorcidas. Elas são meras interpretações e não registos (do que efectivamente aconteceu) e, por esse motivo, cabe ao espectador interpretar a sua visão dos acontecimentos, tendo por base as memórias (de Leonard) a que tem acesso.

Memento é um típico filme neo-noir. A sensação de pessimismo, medo, insegurança e desconfiança estão sempre presentes, assim como são usadas personagens moralmente ambíguas, corruptas e vingativas. Ademais, a aplicação das convenções de filmagens neo-noir são evidentes desde o início do filme pelo facto de a personagem recorrer a uma máquina fotográfica polaroid — o que demonstra que é dada a devida importância ao papel das novas tecnologias na sociedade contemporânea.

A mise-en-scène também é bastante próxima do clássico neo-noir: o uso repetido do preto-e-branco, o uso de luz dura e a constante recorrência a sombras são meros exemplos do género presente. E, apesar das cenas coloridas não serem tão sombrias como é habitual, o conjunto de cores que é usado carece de brilho. Por último, a cenografia também contribui para a natureza sombria do filme: um motel solitário, um armazém abandonado, uma cidade com poucos habitantes… tudo isto para realçar a solidão de Leonard.

Memento é um filme que fica na memória sobretudo pela forma particular e original em que a história é narrada. A ambiguidade fornecida pelo enredo não-linear obriga a que a audiência calce os sapatos de Leonard e, consequentemente, faça parte do filme. Toda e cada cena é um verdadeiro quebra-cabeças. Um filme que, ironicamente, é impossível de esquecer.

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