Pretérito mais que perfeito

Sorrateiramente, como o tempo gosta de fazer, completamos 20 anos daquela data que me fez, aos 17 anos, mais feliz, em um estádio de futebol, do que qualquer outra poderia ter feito até hoje.

De palco, o místico maracanã, ainda dentro de sua estrutura de estádio, sem a fantasia fria e distante de uma arena. Por adversário, o maior rival. Uma vitória, punha o Vasco na final e, de quebra, eliminava o Flamengo. A confiança rivalizava com um teimoso receio. Lembrava de 1992, quando a Cruz de Malta, superior a todos no Brasileiro, sucumbira justamente diante do rival da Gávea. Era um clássico. Convinha respeitar.

Assim pensaria qualquer ser humano. Jamais um Animal.

E o Animal, àquela noite, carregava instintos ainda mais aguçados. Edmundo fazia um campeonato irretocável. Estava dois gols atrás do recorde de então e quebrá-lo sobre o arqui-inimigo era tão desejável quanto difícil.
Com um gol de velocidade e talento, ainda no primeiro tempo, ele mostrou que buscava uma noite perfeita. Veio, porém, a expulsão de Nelson, um jogador a menos, a pressão adversária, as defesas de Germano e, pronto, o nó na garganta começava a formar-se. Juninho, contudo, chutou a bola como quem espanta o descrédito. E ela encontrou um Edmundo disposto a dar-lhe um só toque para descartar dois oponentes e colocá-la nas redes novamente. E tudo ficava ainda mais sublime.

Um pênalti para o Fla e uma ínfima possibilidade de reação foram elementos suficientes para o craque mostrar, porém, que nem a perfeição seria o seu limite.

Baile na frente dos zagueiros, pelota na rede, rebolado na comemoração e Edmundo fazia mágica.

Moleque feliz como poucos homens já puderam ser na vida, descobri que aquela noite não teria fim. Com os olhos turvos pelas lágrimas e semicerrados pelo sorriso, nem vi o gol de Maricá que destruiu, impiedoso, qualquer resquício de medo.

Comemorando estava, comemorando fiquei. E, em algum lugar desconhecido do tempo e do espaço, ainda estou lá. Pulando, gritando e celebrando. E até hoje, nos momentos mais tristes e desafiadores da vida, eu volto o olhar para dentro de mim e revivo aquele adolescente encantado, ditoso, radiante. E com um sorriso de canto de boca, volto ao presente, destemido e revigorado. Graças a esse pretérito mais-que-perfeito.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.