Cabelo

Natalija Palurovic

Sim, meu cabelo é importante. Posso parecer repetitivo ou monotemático, mas beleza põe-se a mesa. Já falei sobre isso aqui, mas torno a repetir. Não me acho lindo, aliás, nunca me achei. Dia desses a Karen, uma colega de trabalho, disse que me pegava se eu fosse homem (ela quis dizer hétero). Dentro de mim a única certeza que tive é que ela só disse aquilo por ser impossível. Havendo essa possibilidade ela não falaria e muito menos faria.

Não tenho lembrança de qualquer que seja a fase da vida em que meus pais dissessem que fosse bonito. Certa vez fomos ao supermercado e, na volta pra casa, meu pai disse ter vergonha de sair comigo. Recordo também de chegar na casa de uma tia-avó que bradava a beleza do Thiago, meu irmão do meio.

Na escola nunca me senti desejado. Lembro que na adolescência minhas amigas beijavam (não existia ficar) os meninos mais bonitos do colégio numa escadaria escondida que havia atrás do palco no pátio. As mães delas me amavam e sonhavam que um dia eu fosse genro delas, porém, os elogios eram pela minha educação, inteligência, postura. E, enquanto as progenitoras me chamavam de meigo (coisa mais gay) as filhas eram chamadas de meigalinhas na escola. Tadinha delas. Tadinho de mim, que nem mesmo escondido num quarto escuro tive um beijo roubado, ainda que a pessoa estivesse vendada.

Demorei para ir às baladinhas. A primeira que fui eu já tinha 19 anos, enquanto hoje os pais levam a festas seus filhos pré-adolescentes que bebem refrigerante, água e suco no lugar de drinks. Penumbra, paredes pretas, lasers, luzes estroboscópicas, tudo favorecia. Vi um menino que parecia flertar comigo, me animei, enchi o peito ao mesmo tempo que fingi desinteresse. Afinal, não é assim que as coisas funcionam? A gente finge que não quer e o outro fica ainda mais interessado. Olhava de soslaio a aproximação dele até que passou por mim, chegou rente ao rosto e num silêncio solene de olhares a língua dele já estava na boca que não era a minha, mas a de outro cara.

Nunca fiz sucesso em festas e frequentemente da mesma forma que chegava eu ia embora, ou seja: sozinho. Certa vez o namorado de um amigo disse: chegou o lobo solitário! Elogio? Ofensa? Culpa da bebedeira? Não! Naquele momento eu fora diplomado em não-beleza e no quesito sex-appeal… NOTA ZERO!

Para contornar tudo isso, ainda que eu veja o passado pelo retrovisor e a mim no presente pelo espelhinho escondido no quebra sol interno, eu dirijo a minha autoimagem dedicadamente. Pra falar a verdade eu tenho verdade fissura, pra não dizer neurose pela minha imagem. Dia após dia eu a aprimoro com o objetivo de deixar um pouco melhor o incorrigível. Desde cedo eu percebi que não haveria funilaria ou martelinho de ouro que desse jeito e, por isso, comecei a investir tempo, dinheiro e informação de modo que eu alcançasse uma imagem melhor já que não fui dotado dela de berço. Assim, qualquer coisa que rompa essa perfeição e harmonia que inventei pra mim, me chateia, me desmonta, me deixa a sensação de ser um farrapo. Ainda que seja uma simples chuva que tira meu cabelo do lugar.

Por isso eu digo: SIM, meu cabelo é importante!

r.

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