Êxodo Nordestino

Processo migratório secular de populações oriundas da região nordeste do Brasil para outra partes do país, em especial o centro-sul. Esse movimento demográfico teve e tem grande relevância na história da migração no Brasil, desde a época do Império. (Wikipedia)

Nascida em Recife/PE, minha mãe se mudou para o Rio de Janeiro aos 19 anos. Ao lado do Tio Alan, foram ao encontro da minha Tia Dalvani que ja morava num quartinho em Boa Vista, São Gonçalo. Segundo mainha, Titia dormia em uma cama de solteiro e ela dividia o sofá com Tio Alan.

Em pouco tempo mainha conheceu uma vizinha que trabalhava como cozinheira na casa de bacanas em Icarai, na Rua Ary Parreiras — dizia que a Dona Malaí estava a procura de uma empregada doméstica, e mainha topou o emprego sem pestanejar.

Com todo mundo empregado, conseguiram uma casa um pouco melhor no Paraíso, São Gonçalo. Se mudaram para os fundos da casa da Dona Zenilda. Ainda era um quartinho, mas dessa vez tinha uma cozinha — ja não precisavam dividir o sofá e a cama, com o fogão duas bocas e a geladeira. O banheiro era compartilhado com a casa da Senhoria, mas mainha afirma que foi um avanço e tanto.

O Marcos (sempre confundo com Carlos), e que não sei o sobrenome, também trabalhava pra Dona Malaí, responsável por obras em seus diversos imóveis e escolas. Não sei ao certo o quão apaixonada mainha era por ele, e nem por quanto tempo ficaram juntos. Acabou engravidando, e o tal Marcos meteu o pé. Sem dinheiro e sem apoio do meu pai biológico, muitos disseram que ela deveria fazer aborto. Mas mainha decidiu seguir com a gravidez.

Acostumada a dormir na casa da patroa durante a semana, eu ainda bebê, ficava a maior parte do tempo por lá. Até que mainha começou a trabalhar na casa de passeio da família em Cabo Frio. Segundo ela, eu pouco chorava, mas ficava a maior parte do tempo no berço, e era difícil conseguir tempo pra me dar banho, essas coisas. Os patrões e seus filhos vinham primeiro. Depois de cinco anos trabalhando pra mesma família, mainha decidiu pedir as contas pra ter mais tempo pra mim.

Desempregada, quem acabava sempre ajudando era a Zenilda, à quem chamei de Vó por um tempo. Felizmente não demorou muito e mamãe conseguiu outro emprego como empregada doméstica na casa de um advogado. Dessa vez não tinha como eu ficar por lá, então com ajuda dos novos patrões, fui parar em uma creche de freiras no Fonseca, Niterói.

Vida seguia boa até que com pouco mais de um ano, tive uma infecção no intestino tão tensa que as freiras indicaram que eu precisava de cuidados, ou podia até bater as botas. Como você pode imaginar, lá foi mamãe de novo pedir as contas. Sem emprego e comigo doente, mainha correu de novo pra Vó Zenilda.

Eventualmente minha mãe se mudou pro Fonseca, ficou hospedada de favor na casa de outro Tio, Castilho. Pra que minha mãe pudesse trabalhar, e dessa vez sem creche. Eu ficava com as filhas dos donos da vendinha, lembro pouco delas, mas sei que era bem cuidado. Por adorar brincar na rua, e com falta de saneamento adequado, acabei pegando hepatite. Minha mãe largou o emprego, e…

São inúmeras historias, mas todas com o mesmo enredo. Empregada doméstica, nordestina, mulher, mãe solteira e sem grana. Em pensar que ela não conseguiria — guess what?! She fuckin’ made it. Tive tanta ziquizira quando novo que agora não pego nem gripe.

Mainha, um cheiro. Te amo.