A preguiçosos e diletantes: Shakespeare

1.

Minha avó sabia de Shakespeare. Qualquer adolescente, impúbere e alheio que seja, sabe que existem o Romeu e a Julieta. Heminges e Condell, editores do First Folio, a primeira reunião do teatro de William Shakespeare, dividido em 36 peças, não haveriam de supor o serviço que prestavam à espécie humana quando publicaram, em versão impressa, a base da língua inglesa, da psicologia do homem moderno, da estrutura da vida humana de lá e de cá.

Shakespeare não é o Camões da língua inglesa. Shakespeare não foi negligenciado. Shakespeare não foi esquecido. Aqui, sobre Camões — Gamões, ria de mim um velhinho, que não sabia quem era o poeta e nem diferenciava o C do G — , não editamos nada, não comentamos nada — as edições críticas da década de cinquenta comem a poeira e as traças das bibliotecas públicas. Em Inglaterra e Estados Unidos, por não haver lá tanto vesgo e tanto coxo, a obra de Shakespeare é protegida, guardada, estudada. Todo ano surge coisa nova. Há uma porção considerável de gente que dedica a vida apenas a isso — a ler, a escrever, e editar, e comentar — . Em Washington, o centro político do mundo, reside o desinibido e adequado Folger Shakespeare Institute— com seu Teatro, seu centro de pesquisa, sua livraria e sua edição: falaremos dela mais adiante.

Grandes Universidades editam ou editaram as obras completas: Cambridge (New Cambridge Shakespeare); Oxford (Oxford Shakespeare). G. Blakemore Evans, falecido em 2005, foi Professor de Harvard e editor da Riverside Shakespeare. Em 2016, a Norton publicou uma nova edição comentada das obras completas sob orientação e edição de Stephen Greenblatt. Há grande movimentação e entusiasmo, há grandes produções — a BBC, por exemplo, está gravando uma nova coletânea de montagens.

Nós, brasileiros, por presos que estamos no labirinto dos editores embusteiros e tradutores que não aprenderam português, não sabemos por onde começar. Shakespeare existe no Brasil? É a primeira pergunta. Eu mesmo, lá em 2009, perguntei a um amigo, o L. F. Alves: Qual tradução ler? Não soube. Era o cara mais culto do meu círculo de amigos. Mandou-me um arquivo com alguma tradução do Millôr, que logo deixei de lado, posto não me causava nem gôsto nem entusiasmo.

Desde lá, admirei, à distância, as referências que como migalhas valiosas me iam surgindo em ensaios literários. No segundo semestre de 2015, finalmente, lançaram-me a oportunidade ideal: Lawrence Flores publicava, pela Penguin — Companhia das Letras, uma nova tradução de Hamlet. Baratinha, saquei o cartão mágico e a comprei. Quis mais. Sempre mais. Shakespeare aí tornou-se o mensageiro da minha vida interior.


2.

Em julho de 2016, quando arrumei um novo emprego, encomendei uma montanha de edições brasileiras.

Antes dos livros, porém, queria falar dos projetos brasileiros de hoje.

Queria. Pois não os há. Não que eu conheça. Sei apenas do esforço de Liana Leão, Professora da Universidade Federal do Paraná, que fez-nos o grande favor de entrevistar James Shapiro. Em seu site, Shakespeare Digital Brasil — google it, or else thou art a rascal, a rogue, a brazen-faced varlet — também estão disponíveis entrevistas com Barbara Heliodora e outros estudiosos brasileiros, além de textos introdutórios a peças e à vida de Shakespeare.

Mais nada.

Nada. O terreno do labirinto parece só aumentar e o leitor interessado está sem direção, tendo à mão apenas uma tradução imediata: a de Barbara Heliodora. Falarei sobre isso a seguir.

(PS: A Companhia das Letras parece que publicará as obras completas. Ou parte dela. A tradução de Romeu e Julieta feita por Francisco Botelho já está disponível — depois, pelo que li, ele traduzirá Henry IV. O projeto da Cia, se for adiante, será de muita valia. Botelho é, na minha modestíssima opinião, o melhor tradutor brasileiro vivo. L. Flores, que está traduzindo Othello, também é de uma perícia formidável. Na mão dos dois, a coisa pode caminhar bem. Espero que sim.)


3. As traduções que li

Uma montanha, eu dizia.

And if thou prate of mountains let them throw / Millions of acres on us, till our ground, / Singeing his pate against the burning zone, / Make Ossa like a wart!

Respira, little Hamlet, respira, que comentarei acre a acre, polegada a polegada. Quatro ou cinco prateleiras de Shakespeare. Só Shakespeare. E isso apenas para descobrir o que era bom e o que era ruim. Apenas para separar, discernir, ou, como diz minha senhora — que é nordestina e por isso fala engraçado — para me achegar à diversidade das traduções, que não havia quem antes houvesse feito isso por mim.

(Faço aqui um parênteses para que não fiquem bravos e ressentidos comigo. Eu estou narrando uma experiência. Não sou crítico literário. Minhas opiniões só têm peso para o leitor diletante, o leitor preguiçoso, como eu.)

A primeira que comprei, bem antes de conhecer a tradução do L. Flores:

Li, por recomendação de um amigo — eu ia desconfiado, me achegando aos poucos — o Ricardo II de Carlos Alberto Nunes. Li mal. Li por cima como quem lê não querendo ler. As inversões sintáticas, por mais que com elas o leitor depois se acostume, incomodam. Enchem o saco, mesmo. Não entro no coro dos dramaturgos: “Shakespeare escreveu para o teatro, e por isso a tradução de C. A. N. é bastante infeliz, etc. etc.”. Não. É infeliz mesmo ao leitor culto. Ao leitor que leu Camilo Castelo Branco. Ao leitor que gosta de ler os Sermões do Pe. Antônio Vieira todo santo dia antes de dormir — C. A. N. foi um sujeito genial que por capricho da fortuna se tornou insuportável.

Carlos Alberto Nunes

Um exemplo para o gôsto do meu leitor. O começo de Richard III é um dos mais deliciosos de Shakespeare. Richard, no seu hálito macabro, depois de, em Henry VI, ter matado um monte de gente, congemina o seguinte:

Now is the winter of our discontent / Made glorious summer by this sun of York.

C. A. N. o transcreve assim:

Ora pelo sol de York o frio inverno / do descontentamento foi mudado.

Richard III se expressaria dessa forma só se fosse solteiro, gramático e tomista. Infelizmente, não era isso o que eu procurava. A tradução de Nunes é elegantemente obscura: falta-lhe o movimento da fala, a naturalidade do som.


A de Barbara Heliodora foi, nesse sentido, um grande alívio — For this relief much thanks. [Alberto Nunes] is bitter cold, And I am sick at heart — . Li-a depois de ler o Hamlet de L. Flores, de que muito gostei.

Algo faltava, contudo, na tradução dela. Algo da sonoridade. Algo mais do sentido do texto. Shakespeare escreveu para a platéia, que o aplaudia ou lhe cuspia, mas também escreveu para aristocratas — Troilus & Cressida, por exemplo, é obra de transparente qualidade filosófica.

Bárbara Heliodora

O público de Shakespeare, contudo, não é apenas o do teatro, o do palco. Quem assiste a King Lear se choca muito com a cena em que Gloucester perde os olhos. As mocinhas gritam. Os mais sensíveis viram o rostinho. No entanto, quem lê, se lê bem e abertamente, depois do choque acaba por entender os milagres, e constata, pela clareza do exemplo, aquilo que Sócrates dizia sobre os poetas: são seres aéreos e alados, quase divinos.

Heliodora traduziu para o teatro, que era a sua grande paixão. O texto saiu fluente, limpo, compreensível, acessível a todos. Sem grandes mistérios filológicos e manobras intelectuais. Mas não era o que eu queria, posto que sou antes leitor que platéia.

Grande diferença. “Existe a realidade e existe o sopro do real, a vertigem instauradora”, escreveu Tolentino. É a distinção.

A edição de L. Flores me impressionou pela quantidade de notas. Ao fim do volume, algumas dezenas de páginas nos explicam termos obscuros, dificuldades de tradução, contextualizações históricas, notas de sentido, etc. Muito me agradou. E eu queria algo assim. Algo que me explicasse o sentido oculto das falas, o significado histórico de conceitos.

Por indicação do próprio tradutor, que oferece a lista dos livros consultados ao final do livro, entrei na abebooks e comprei uma porção de volumes da Arden Shakespeare por um dólar cada. Dois ou três meses até que chegassem.


Nesse meio tempo, aproveitava o período livre no estágio obrigatório da faculdade e do trabalho para ler as poucas traduções da pena do Millôr Fernandes. Voltei a ele. Não me decepcionei — não muito. Millôr é bastante divertido, tem o domínio completo da língua portuguesa, e, além disso, era evidente que havia consultado edições comentadas em inglês ou francês. Numa parte de King Lear, Kent, um leal e sanhudo servo do Rei, passa um bom tempo brigando com Oswald, ocasião em que o xinga de todos os nomes possíveis, inclusive de action-taking knave, que Millôr traduz por canalha “que foge da luta e recorre à justiça”. É a transposição, em português fluente, de uma nota da Arden Shakespeare, Second Series. O sentido, em inglês, é esclarecido em nota de rodapé. Millôr transpõe a nota no meio do texto, deixando o insulto claro, preciso e agradável ao leitor.


Fernando Pessoa escreveu o seguinte sobre a edição da Lello & Irmãos:

Apenas folheei, e nem uma linha li, das traduções que o sr. dr. Domingos Ramos terá imortalmente que expiar. Porque não é com a competência de tradutor-de-inglês do sr. dr. Ramos que eu implico e esbarro. É com a sua competência para traduzir Shakespeare, visto que lhe cai em cima e o reduz a prosa.

Muito mais sensível do que eu, Pessoa rejeitou pela capa os volumes que me salvariam — pela qualidade e pelo tamanho.

Lello & Irmãos

Trinta e seis volumes. Apostei metade do meu salário neles. “Comprei”, disse à minha senhora, depois de guardar o cartão de crédito no bolso. “Tá”. Um frio “tá”. Depois, mudou de assunto. Não ficou amarga, pois é boa moça — Heavens rain grace on that which breeds between me and you!— . Mas um “tá”, quando se está apaixonado, é paga suficiente de um deslize — hoje, por graça, ela os lê e os aproveita.

Quando os volumes chegaram, abri, já sem mágoa, o pacote. Cabiam no bolso da calça. Foi uma aposta. Eu não sabia da qualidade do que eu comprava. A edição foi composta por cinco ou seis tradutores. Todos eles com seu estilo. Sem regras fixas, cada um foi moldando a peça traduzida à medida de si próprio.

António de Castilho, por exemplo, que traduziu o Fausto — e há quem o acuse de o ter feito sem saber alemão — compôs em verso próprio o seu A Midsummer Night’s Dream. Sem notas, sem ensaio introdutório. Castilho negligenciou tudo, menos a poesia. O resultado, que não é do meu gosto, pode agradar a quem tenha o espírito mais movimentado. Não deixa de ser curioso, no entanto, esse esforço — e essa disparidade de tradutores, de inclinações intelectuais. Em contraposição, o Dr. Ramos, o Dr. condenado pelo Pessoa, é certamente o tradutor mais judicioso que possa existir. Traduziu diversas peças, todas elas bem alimentadas de ensaios introdutórios e notas explicativas. O exemplo mais elevado é a tradução de Júlio César: o Dr. Ramos seguiu, passo a passo à letra do Bardo, a narrativa de base que deu origem à peça: a vida de Júlio César de Plutarco. O leitor que tenha paciência de folhear o volume achará ali uma sobrevida, uma camada a mais da personalidade vibrante e do destino trágico de César. As notas são exaustivas, completas, pra latinista nenhum botar defeito. Outro tradutor: Henrique Braga. Traduziu, entre outras, Troilus e Créssida. Sua obsessão com os tradutores franceses — os mesmos de que Machado de Assis fez largo uso — é esclarecedora. Ele compara, estuda e até repara as traduções feitas para o francês. Às vezes chega a dizer que são péssimas traduções, as dos franceses. O homem é ousado.

O traço mais elevado dessa edição é a pluralidade. Cada tradutor expandiu a sua própria personalidade e o seu próprio gosto — e o modo pelo qual o gôsto se desenvolve — carregando à ponta do lápis as suas expressões e preferências mais íntimas. Sem a uniformidade tão característica das edições de hoje, a sensação que tive foi a de estar lidando com gente real — gente que leu, estudou e amou a obra de William Shakespeare.

Com exceção de 4 ou 5 das Comédias, li todo o Shakespeare pela edição da Lello. Não me arrependo. Mesmo hoje, lendo em inglês, volto a elas. A tradução é sempre precisa. Sempre clara. Feita numa época em que as pessoas sabiam escrever em língua portuguesa.

Durante esse tempo de leitura quase obsessiva, encarava, tímido, os voluminhos da Arden — sempre com medo, duvidoso de mim — . Não deu, mesmo. O Hamlet ficou ali, parado, por um bom tempo.


4. Edições em inglês: as pequenas

Uma pesquisa rápida em fóruns americanos e ingleses me esclareceu a dúvida: Arden Shakespeare, para quem começa, é complicada, mesmo. Há opções melhores para iniciantes.

Afora a Arden, conheci outras edições críticas de igual peso: todas elas têm ensaios introdutórios às peças. Todas têm notas explicativas. Algumas, contudo, se preocupam mais com o que Shakespeare realmente escreveu — é o caso da Oxford Shakespeare — , outras, mais com a dramaturgia, com os comentários da crítica moderna — feministas, historicistas, etc. — como a New Cambridge Shakespeare. Essas duas edições são bem parecidas com a Arden, menciono-as porque qualquer edição comentada vale a pena. São edições realmente boas, cada uma com seu mérito — apesar dos pesares. A diferença é o tom. O toque. O centro da atenção. Arden Shakespeare não é reconhecida como a principal edição à toa. Falarei dela mais adiante.

Oxford e New Cambridge

De todo modo, de começo, eu não queria edições críticas com notas exageradas. Queria algo simples, que me permitisse ler Shakespeare e compreendê-lo na superfície do seu texto. Primeiro, a simplicidade. Aventurei-me pela Amazon e encontrei lá alguns volumes da Folger Shakespeare: a obra completa em formato de bolso. A Folger é usada sobretudo por alunos americanos que ainda não estão na graduação. Das edições individuais, a Folger é, de longe, a melhor para iniciantes.

O livro é flexível. Dobra ao meio. Você pisa em cima dele, senta em cima dele, joga ele na água: ele não liga, ele não chora. Tudo fica bem. As vantagens são bastantes: de um lado, o texto da peça, e, de outro, as notas explicativas. A qualidade das notas não é inferior à qualidade de algumas das grandes edições. As respostas às principais dúvidas que surgem a um leitor com um domínio médio de inglês se encontram ali. A maioria delas, pelo menos. Um ensaio introdutório padrão sobre a linguagem de Shakespeare foi incluído em todos os volumes, outro, pequeno, sobre a peça em questão. Ao fim, notas maiores que esclarecem os problemas mais complicados da obra.

Folger

5. Edições em inglês: as grandes

Dos volumões, a melhor edição para um primeiro contato com Shakespeare é a Norton. Hoje em dia, quando quero pela primeira vez ler uma peça, uso a Norton, não a Folger — a Folger levo-a eu à faculdade e ao trabalho, ao banco, às filas, aos encontros de família — . Editada por Stephen Greenblatt, a Norton Shakespeare é a grande adversária da Riverside Shakespeare.

Riverside Shakespeare

A diferença entre as duas: a Norton tem como texto base o da edição de Oxford — que é ruim, dizem. “Publicam a pior poesia possível”, diz o Bloom. O texto da Riverside, ao contrário, é tradicional. Eles não escrevem “struck”, escrevem “stroock” e põem a nota: “stroock = struck”. A Riverside é sempre confiável. Sempre firme. É o texto ideal a se ler.

New Variorum Shakespeare (Incompleta)

Não discutirei aqui as variações das versões das obras de Shakespeare — Folios, Quartos, etc. talvez num próximo texto. Quem sabe — . Mencionarei, contudo, o seguinte: Horace Furness, em 1871, juntou uns calhamaços pesados e os pôs em ordem sobre sua mesa. Melancólico que era, suponho, recolheu pérola por pérola do que haviam dito os estudiosos mais argutos e interessados de antes dele: Samuel Johnson, por exemplo. Alexander Pope. William Warburton. Lewis Theobald. Furness coletou tudo isso, com a ajuda de antigas edições da Variorum — a First Variorum foi publicada em 1803 por Isaac Reed — e publicou a New Variorum Shakespeare, 17 peças em 18 volumes. O resulto é extraordinário. Vejam, por exemplo, essa Guerra de Tróia cujo conflito tem origem em apenas uma palavra: lunacies.

A New Variorum é a base de toda edição crítica moderna. Ali, a principal discussão era saber o que Shakespeare realmente escreveu: em certa passagem de King Lear, por exemplo, Edmund diz o seguinte:

“And thou must make a dullard of the world / if they not thought the profits of my death / were very pregnant and potential spirits [spurs] / to make thee seek it.” (King Lear, 2.1.73–77).

No Folio, lê-se spirits, mas Foakes, editor de King Lear, Third Series, prefere spurs. Por quê? Não há consenso sobre isso. Ora a preferência vai pelo Folio, ora para o Quarto. Ou, em caso de nenhum dos dois, o editor deduz, ou supõe, o que Shakespeare teria escrito. A discussão continua até hoje. Sem espaço. Sem descanso. Lá, contudo, podemos ver a guerra em própria presença — não precisamos de Homero para acompanhar a fúria de Aquiles.

Voltando: A Riverside, portanto, oferece o texto mais sólido das Obras Completas de William Shakespeare. Suas notas não são para iniciantes. A Riverside não subestima o leitor, como todas as outras edições — mesmo a Arden. Um leitor iniciante não entenderá tanta coisa como entenderia se lesse, primeiro, uma outra edição. Experiência própria: Riverside é a obra para o resto da vida. Mas, primeiro, Norton Shakespeare.

A principal vantagem da Norton é, sem dúvida, a estrutura do texto. Em primeiro lugar, diferentemente da Pelican e da Riverside, o texto foi disposto em coluna única — só há uma coluna de versos na página inteira. A letra é grande e legível. Em segundo lugar, os esclarecimentos dos termos obscuros e arcaicos — trabalho que, em outras edições, é exercida nas notas de rodapé — se posicionam ao lado do verso onde a palavra desconhecida se encontra. Na prática, isso significa que você não precisará ziguezaguear os olhos para entender que, finalmente, “I wont” significa simplesmente “I used”, e que “Rival” não é rival, mas companheiro. Os ensaios introdutórios a cada peça, à semelhança da Riverside, são escrituras preciosas da língua inglesa. Dos que li, não há nem um que não seja, no mínimo, elegante. O ensaio introdutório geral à edição, escrito por Greenblatt — que publicou outros livros sobre a época de Shakespeare — , se sobressai, e é um dos atrativos do volume.

A Norton é a primeira edição que uso quando quero conhecer uma peça. É a mais fácil. O mecanismo de esclarecimento é rápido, fluido, e, por vezes, se não há outra dificuldade que não a das palavras desconhecidas, parece que estou lendo em português. Ler Camilo Castelo Branco à noite é mais difícil do que ler Shakespeare na edição da Norton. João do Rio é o último chefe. Vejam este exemplo:

Norton Shakespeare

Parte de um dos gritos mudos de Hamlet. E sem dificuldade. A numeração indica que há, embaixo, uma nota maior, de três ou quatro linhas no máximo. Lida a peça pela Norton, você pode ficar tranquilo. A primeira etapa foi concluída. Agora, se sair de casa, leve consigo a Folger. E, quando for reler, lembre-se da Riverside, da Oxford, da New Cambridge, e, principalmente, da Arden Shakespeare: não da edição em volume único, que não tem notas. Mas dos volumes individuais, largamente comentados, com introduções de quase 400 páginas, notas para todo lado e resposta a toda dúvida. Por exemplo, em Hamlet, lia eu, primeiro, na Folger: depois de um solilóquio capaz de fazer o Rambo chorar, Hamlet vê, de longe, Ophelia, que parece rezar, e diz:

Soft you now, / The fair Ophelia! — Nymph, in thy orisons / Be all my sins remembered.

Antes, Hamlet já estava desgostoso com a pequena. Ela já seguia os conselhos do pai e do irmão e não queria mais atendê-lo em privacidade. Hamlet estava triste, angustiado, etc. Minha dúvida era: Hamlet fala sério ou está sendo irônico e maldoso? Abri a Arden Shakespeare, Second Series, e estava lá:

Ophelia is seen as at her devotions. The tone is ‘grave and solemn’ (Johnson) rather than ironical (Dover Wilson).

Depois, abri a Third Series:

‘Hamlet, at the sight of Ophelia, does not immediately recollect, that he is to personate madness, but makes her an adress grave and solemn, such as the foregoing meditation excited in his thoughs’ (Samuel Johnson). Others, however, find his ironic tone or even sarcastic. In Q2, this is the first time that Hamlet and Ophelia encounter each other onstage, though some productions and films anticipate their meeting by etc…

Na foto, os livros mais finos são da Second Series, os mais grossos, da Third. A diferença, como vocês podem constatar pelo exemplo que transcrevi de Hamlet, é a seguinte: em qualidade, a Second é o kernel, é o núcleo de onde e por onde a Third Series se expande. Em relação ao conteúdo e à qualidade do texto, a Second Series é mais tradicional, mais conservadora, como a Riversidade. A Third, mais entusiasmada e sensível aos apelos do dia, costuma modificar coisa ou outra, mexer aqui e ali. No geral, porém, tanto a Second quanto a Third são edições sublimes. É o que há de melhor no mercado. De minha parte, sempre confiro, primeiro, a Second. Macbeth, por exemplo, é ruim na Third, mas soberbo na Second. King Lear, ao contrário — apesar do spurs mencionado acima.