Exceto pelos ecos
Você na sala de estar.
Você numa tarde de Terça Feira. Uma brisa leve balança as cortinas. Sentada próxima a janela com os dois pés sobre o sofá, você lê enquanto eu te assito do escritório. A luz do sol se derrma pela janela e desenha sua silhueta. Eu penso em acender fogos de artifícios, penso em piruetas. Tento tolamente fazer anotações da cena
Será que as plantas já nomeiam os cômodos por si só? Será que somos nós que dizemos o que cada espaço significa?
Mal vivemos neles.
Você com livro sobre o colo, a brisa sopra o vapor do seu café.
Eu no escritório tentando lembrar as regras de poesia. “São quatorze versos, os últimos dois rimam”, “O que significa Pentâmetro?”.
Você na sala de estar. Pernas dobradas a quarenta e cinco graus.
Escrevo AB, AB, tento encontrar o seu esquema rímico. Procuro objetos na mesa que possam melhor esculpir sua imagem. Se eu te pintasse, como chamaria? Mulher (lendo)? Garota (descansando)?
Eu lembro tão bem de assistir você transferindo seu peso e trocando de página. Eu posso ver tudo daqui. Dentro de uma sala de estar onde somente eu vivo, mas nunca entro.
E eu pauso por um minuto onde estou quando ouço seu nome. Ás vezes acho que vejo seu rosto em lugares improváveis.
Será que esse momentos também reaparecem para você onde eu de repente estou lá e não vou mais embora? Quando você está lendo seu livro durante a tarde, você para e me procura pela sala pra ver se estou lá?
Ás vezes eu penso em todas as pessoas que viveram aqui antes de nós. Sobre como as memórias transformam cômodos vazios no lugar onde se vive.
E quando parte, você leva tudo que é seu, mas as memórias ainda ecoam.
No piso de madeira da sala de estar onde cobrimos os riscos com um tapete. Ou na mancha de vinho no sofá de quando ficamos bêbados e, mesmo assim, decidimos mudá-lo de lugar.
E eu não consigo mais dizer a diferença entre as memórias que nós realmente construímos e aquelas que eu tão somente imaginei. Todas elas conjuram imagens que passam de novo e de novo. Em todas elas você senta e lê enquanto eu te assisto.
E agora eu vivo sozinho.
Exceto pelos ecos.
“Woman (Reading)” — La Dispute. The Rooms of The House (2014). Traduzido e adaptado livremente.