Sobre Gilmore Girls, La La Land e os rumos que estamos dando a nossas vidas

Nos últimos dez dias, bem mais que os últimos três anos, eu tenho refletido muito sobre o rumo que minha vida tem levado. Sim, já faz um bom tempo que os planos que eu tinha para mim foram se despedaçando ao longo dos caminhos que eu desviei, mas chegara a fase em que eu, embora pareça estar tomando um rumo confortável, não sei bem o que estou fazendo com minha vida. O confortável me desconforta. Mas afinal, porque nos últimos 10 dias?

Primeiro, começou 2017, e querendo ou não, de alguma forma fazemos resoluções de ano novo, e as minhas sempre foram muito subjetivas. Pra mim, janeiro é o mês em que avalio e reavalio o ano anterior e tento com certa dificuldade, mas tento, pensar positivo e olhar pra frente, principalmente vendo bons filmes e séries, pois é uma época em que as películas começam a ser premiadas e a fall season está em hiatus, então você fica folgada e muito bem servida de entretenimento.

Pois bem, eu e Isadora combinamos de ver Gilmore Girls juntas, e só fui ver o revival no final de semana passado. Ao que parece, a demora para me deliciar com o revival da série me fez bem, veio muito a calhar com o momento, mas quero me deter à parte em que me tocou muito em meio a miscelânea das minhas particulares “resoluções de ano novo” vendo esse presente.

Nove anos se passaram, boa parte das pessoas na série continuam as mesmas, mas cada uma a sua forma, deu novo sentido às mesmices de sua vida. Me restringindo aos Gilmore. Richard morreu, Emily é outra pessoa e não seria se Richard não tivesse ido a outro plano. A morte e a perca são pilares nas nossas vidas. De uma forma triste e brusca “à Gilmore”, vemos Emily desabar e se reerguer em suas “novas resoluções de ano novo”, ela leu A Mágica da Arrumação e resolveu aderir ao desapego e também ao apego, o desapego à bens materiais e o apego aos empregados, o que a redimiu dos muitos anos em que maltratou suas empregadas. A série, graças à Deusa, não perdeu sua essência e nem caiu na armadilha de fazer a politicamente correta exacerbada em meio às eleições estadunidenses polêmicas do ano passado. Calma aí, Emily continua sendo Emily, apenas deu novo rumo a sua existência e vida. A Amy Sherman-Palladino fez uma boa escolha ao optar pelo sutil nesse sentido, como por exemplo, em uma passagem bem direta em que Lorelai confirma o que foi suposto há anos: Michel é gay, como também casado e prestes a aumentar sua família. Mas acontece que Emily, a terrível Emily, sempre nos arrancou certa ternura em meio à tanto horror, e particularmente, tomando novos rumos no revival da série, o fez com muito louvor.

Agora vamos à Lorelai, ela já havia tido muito picos de realizações e updates na vida durante a série, então no revival foi dado a ela um insight. De repente a personagem toma um choque de realidade. Depois de discutir com as pessoas mais importantes de sua vida, Lorelai comparece a mais uma desventura dos moradores de Stars Hollow, a faixa b-side para o musical da cidade, que havia ficado de fora na primeira audição. Ao sentar, ouvir e sentir a apresentação, Lorelai começa a sentir calejar, partes de sua vida que parecem ter ficado intocadas nos últimos nove anos, o seu relacionamento consigo mesma e sobretudo com sua mãe e seu companheiro, e mais aquilo em que ela havia trancado em uma caixinha preta escondida no fundo de seu coração. Não, isso não é explícito na série, digo isso porque eu acredito que entendo a Lorelai dos pés à cabeça, é uma das personagens que chego a amar mais que minha gata Nala, então sinto propriedade em dizer, mas isso não vem ao caso. O que quero dizer que a partir desse insight vendo essa apresentação, a Lorelai resolve fazer “Livre”, o livro, não o filme. (Eu fiquei bem triste pois apesar de ter o livro, vi apenas o filme, então já pretendo ler logo por necessidade de pegar essa referência). E a partir das presepadas dessa “resolução de ano novo”, nossa Gilmore preferida também resolve dar um novo rumo à sua vida, é como se olhasse o futuro e ao mesmo tempo para os anos passados (leia-se a história da série que não foi finalizada e ficou cheia de desfeitas) e resolve seguir com mais updates. Nas sete temporadas de Gilmore, mesmo tendo nos lembrado diversas vezes em que fracassou em sua vida e decepcionou seus pais; Lorelai conquistou sucesso profissional abrindo sua tão sonhada pousada, arcou com os estudos da filha ao por em risco sua integridade mental reatando a convivência com seus pais e finalmente encontrou o amor com o cara certo, mas aí até o revival a vida dela parece ter dado uma estagnada, não de forma negativa, mas nesse “ano para recordar” Lorelai resolve acertar as nuances de sua angústia acumulada: quando liga para a mãe e realiza o seu desejo de dividir uma boa lembrança de Richard, a relação entre as duas dá um salto duplo twist carpado em termos de Lorelai e Emily, algo em que confesso ter esperado em Gilmore Girls. Sempre soube dos limites da Lorelai com a mãe, já disse, eu a entendo muito bem, e sei o quanto lhe custou abrir a caixinha preta escondida em seu coração para dar à Emily o que é de Emily, a simples ligação parece pouquíssimo para maioria, para mim e para Lorelai não. Outro acerto é quando decide finalmente casar-se com Luke e mais tarde ampliar o Dragonfly. Pois bem, soma-se duas garotas Gilmore em suas “resoluções de ano novo” bem sucedidas. Vamos à Rory.

Basicamente, 10 anos depois, a incorruptível Rory Gilmore não está nem perto do que imaginávamos que o futuro e as escritas dos irmãos Palladino reservavam a ela. Se Rory Gilmore chegou à crise dos 30 e não conquistou nada, quem sou eu? Acredito que a cúpula da fanbase da série deve ter arrancado os cabelos ao ver o que Rory se tornou, lembro que a galera super esperava uma Rory casada com Logan e bem-sucedida, imagina o desespero dessa gente ao ver ela mantendo um caso com Logan mas tendo a repercussão que elas não desejavam? Pois bem, estou chegando aonde quero chegar, calma. A Rory, em todo o processo de dar rumos à vida durante toda a prerrogativa da série, segue sem rumo no revival, não casou com nenhum da tríade de príncipes (Dean, Jess, Logan), não encontrou o emprego dos sonhos, não foi trabalhar no New York Times, não se realizou no jornalismo, nem na vida. Se tornou o exemplo clássico da nossa geração de pessoas que sonharam, sonharam e não deram certo, ou nem se engajaram em por seus sonhos a frente. As duas referências à Lenha Dunham (de Girls) ressoam isso e não são por acaso. Rory diz à Lorelai em tom de brincadeira “a culpa é sua”, acusa a mãe de ter dito que ela conseguiria tudo, mesmo que nós saibamos bem que Rory também sabe, que tudo o que Lorelai fez por Rory foi ter permitido que ela sonhasse. E vocês lembram do discurso de formatura da Rory em Chilton? Lorelai encheu a casa de mulheres da música, do cinema e da literatura, para que Rory se inspirasse, e assim fez Rory, mas não conseguiu muito, não o tanto que parecia promissora. Enquanto Emily e Lorelai retalharam e viraram páginas, a Rory voltou muitas, como a Gazeta de Stars Hollow. (Por aí a gente pode acreditar veemente que a série volta com uma nova temporada, a história de Rory não ficaria assim, ainda mais depois das quatro palavras finais).

Ok, vamos a La La Land, esqueçam tudo o que vocês têm ouvido falar sobre o filme pois não é isso que vou repetir aqui, que é um filme técnico maravilhosamente bem dirigido e etc. Já elogiei o filme por aí, sou fã de musicais e fã da era de ouro, La La Land é o casamento perfeito entre essas duas coisas. O que quero focar aqui, em meio as maravilhas de La La Land, é a mensagem do filme. La La Land é um filme sem trama, mas ao mesmo tempo, nunca um filme foi tão ousado e certeiro em dizer o que precisávamos ouvir, ver, experimentar, sentir. Atentai ao clímax de um momento em que Sebastian confronta Mia à tentar mais uma dolorosa oportunidade:

- Talvez eu não seja boa o suficiente.
- Sim, você é.
- Talvez não. Talvez eu seja uma daquelas pessoas que sempre quis fazer isso, mas é como um sonho para mim, sabe? E então, você disse isso, você muda seus sonhos e então cresce. Talvez eu seja uma dessas pessoas.

Quem não se identificou com a Mia não vai saber do que eu tô falando, mas o filme falou com uma parte enorme das pessoas entre 20 e poucos e 30 poucos que encontram-se na crise da geração perdida, das escritas da Lena Dunham em “Girls”, das pessoas que se veem em “Frances Ha”, que acharam ter batalhado muito e não chegaram a lugar nenhum, e que mesmo tendo batalhado por outras vias ou nem batalhado tanto assim, que não chegaram no lugar onde queriam, pois abandonaram seus sonhos pra viver algo com estabilidade, algo que pagasse as contas.

Somos as filhas e os filhos da crise emocional e econômica do mundo, começamos a renegar oportunidades razoáveis pois foi nos dito que conquistaríamos o mundo, de início não queremos nos render a empregos para sobreviver, queremos trabalhar com o que amamos. Doce ilusão, até o dia em que não queremos mais e começamos a nos render às opções razoáveis. É aí que entra a Rory deixando escapar oportunidades demais porque preferia outras que depois não deram certo. E é isso que La La Land veio rebater. A geração mimada dos antes privilegiados e privilegiadas começa a se acovardar com o que antes ansiava, não deseja muito, opta pelo que é seguro, o que dá estabilidade, o estudo superficial para concurso público, o diploma de especialista em porra nenhuma, camufla todos os seus sonhos conformados em “ser ninguém” ou ser alguém razoável, a geração que não ia atrás de concretizar realizações desejadas, hoje sequer acredita nelas.

É aí que um cara jovem e talentoso, que acaba de entrar na casa dos 30 sem chegar perto da crise dos 30s ou das personagens da Lena Dunham, um rapaz de 31 anos com seu segundo filme premiadíssimo e mega bem sucedido antes mesmo de chegar ao Oscar, diz para a geração que parou de se espreguiçar sobre os empregos razoáveis e hoje se espreguiça em cima dos próprios sonhos: não parem de sonhar, vão atrás dos seus sonhos, não deixem nada atrapalhar isso, nem mesmo um amor, ou uma realidade razoável. Ponham em prática suas “resoluções de ano novo”.

E vou dizer, essa era exatamente a mensagem que a geração perdida estava precisando ouvir. Obrigada, Damien Chazelle. Eu entendo a Mia tão bem quanto entendo as garotas Gilmore, que inclusive, devem ter amado La La Land, as maiores fãs de um musical da década de 30s que a gente respeita.

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