A tradição viva: pesquisador Amadou Hampâté Bâ e a origem divina da palavra.

Hoje descobri que compartilhei em outra rede social quando li na minha segunda graduação (por motivos de saúde tive que desistir)… mas este primeiro texto que publico aqui mostra também o motivo de gostar de estudar as estruturas de linguagem, e suas semelhanças — ou não, dependendo do caso.

O trecho deste livro impressiona pela força do que descobrimos ser linguagem — e como algumas das narrativas nas teorias mitológicas de criação do universo seguem um mesmo roteiro. Mais fabuloso ainda é conseguirmos em pleno século XX recuperar, registrar e compartilhar a sabedoria africana que estava tanto tempo guardada apenas nas tradições orais. O talento do homem para destruir aparece primeiro, mas depois aparecem outros que são lentos, porém duradouros e mais fortes!

A ORIGEM DIVINA DA PALAVRA

“[…] A tradição bambara [uma tribo] do Komo ( uma das grandes escolas de
iniciação [de sabedoria ancestral] do Mande [Mali — reino africano na região sudoeste do Saara]) ensina que a Palavra, Kuma é uma força fundamental que emana do próprio Ser Supremo, Maa Ngala, criador de todas as coisas. Ela é o instrumento da criação: “Aquilo que Maa Ngala diz, é!”, proclama o chantre do deus Komo.
O mito da criação do universo e do homem, ensinado pelo mestre iniciador do Komo (que é sempre um ferreiro) aos jovens circuncidados, revela-nos que quando Maa Ngala sentiu falta do interlocutor, criou o Primeiro Homem: Maa.
Antigamente a história da gênese costumava ser ensinada durante os 63 dias de retiro imposto aos circuncidados aos 21 anos de idade; em seguida, passavam mais 21 anos estudando-a cada vez mais profundamente.
Na orla do bosque sagrado, onde Komo vivia, o primeiro circuncidado entoava
ritmadamente as seguintes palavras:
Maa Ngala! Maa Ngala!
Quem é Maa Ngala?
Onde está Maa Ngala?’

O chantre do Komo respondia:
Maa Ngala é a Força infinita.
Ninguém pode situá-lo no tempo e no espaço.
Ele é Dombali (Incognoscível)
Dambali (Incriado, Infinito)’

Então, após a iniciação, começava a narração da gênese primordial:
‘Não havia nada, senão um Ser,
Este Ser era um Vazio vivo,
a incubar potencialmente as existências possíveis.
O Seu-Um chamou-se de Maa Ngala.
Então ele criou ‘Fan’,
Um Ovo maravilhoso com nove divisões
No qual introduziu os nove estados fundamentais da existência.
Quando o Ovo primordial chocou, dele nasceram vinte seres fabulosos que
constituíram a totalidade do universo, a soma total das forças existentes do
conhecimento possível.
Ms, ai!, nenhuma dessas vinte primeiras criaturas revelou-se apta a tornar-se o interlocutor (kuma-nyon) que Maa Ngala havia desejado para si.
Assim, ele tomou de uma parcela de cada uma dessas vinte criaturas existentes e misturou-as; então, insuflando na mistura uma centelha de seu próprio hálito ígneo, criou um novo Ser, o Homem, a quem deu uma parte de seu próprio nome: Maa. E assim esse novo ser, através de seu nome e da centelha divina nele introduzida, continha algo do próprio Maa Ngala’.

Síntese de tudo o que existe, receptáculo por excelência da Força suprema e
confluência de todas as forças existentes, Maa, o Homem, recebeu de herança uma parte do poder criador divino, o dom da Mente e da Palavara.
Maa Ngala ensinou a Maa, seu interlocutor, as leis segundo as quais todos os
elementos do cosmo foram formados e continuam a existir. Ele o intitulou guardião do Universo e o encarregou de zelar pela conservação da Harmonia universal. Por isso é penoso ser Maa.
Iniciado por seu criador, mais tarde Maa transmitiu a seus descendentes tudo o que havia aprendido, e esse foi o início da grande cadeia de transmissão oral iniciatória da qual a ordem do Komo (como as ordens do Nama, do Kore, etc, e no Mali) diz-se continuadora.
Tendo Maa Ngala criado seu interlocutor, Maa falava com ele e, ao mesmo tempo, dotava-o da capacidade de responder. Teve início o diálogo entre Maa Ngala, criador de todas as coisas, e Maa, simbiose de todas as coisas.
Como provinham de Maa Ngala para o homem, as palavras eram divinas porque ainda não haviam entrado em contato com a materialidade. Após o contato com a corporeidade, perderam um pouco a sua divindade, mas se carregaram de sacralidade. Assim, sacralizada pela Palavra divina, por sua vez a corporeidade emitiu vibrações sagradas que estabeleceram a comunicação com Maa Ngala.
A tradição africana, portanto, concebe a fala como um dom de Deus. Ela é ao mesmo tempo divina no sentido descendente e sagrada no sentido ascendente […]”

Amadou Hampâté Bâ. A tradição viva, in História Geral da África, volume I. Editora Ática — pela Unesco. p. 183–185. Capítulo 8: A ORIGEM DIVINA DA PALAVRA está disponível neste link