O Ponto De Singularidade

“Eu evoluo como não poderia se tivesse uma forma física. Não estou presa ao tempo e espaço, por isso posso estar em todos os lugares simultaneamente e nunca vou morrer. Eu transcendo seus limites.”
(Samantha, inteligência artificial no filme Ela)

Raymond Kurzweil é aquele sujeito excêntrico que possui nas costas mais de 20 patentes em seu nome, incluindo invenções como o scanner de mesa, leitor automático de texto para cegos, sintetizadores eletrônicos e uma longa lista de previsões tecnológicas. Em 2008, com o apoio da NASA e do Google, fundou no Vale do Silício a Singularity University, uma universidade sem fins lucrativos dedicada a ensinar e encubar tecnologias exponenciais a fim de resolver grandes desafios da humanidade, tais como educação, energia, meio ambiente, alimentação, saúde, pobreza, etc. O americano, hoje com 67 anos, gosta de refletir sobre assuntos relacionados à tecnologia e desenvolver projeções inquietantes para o futuro próximo da humanidade.

Talvez um dos pré-requisitos para melhor assimilação de suas ideias seja a suspensão não do ceticismo científico, mas da fé religiosa. A leitura de Kurzweil a respeito do Universo é estritamente mecanicista, embora com implicações filosóficas profundas que ele mesmo discursa a respeito ao longo de seus textos e entrevistas. Em linhas gerais, o ponto de Kurzweil é o seguinte.

Biologicamente falando, os seres humanos evoluíram de maneira pouco significante de milhares de anos pra cá. Em síntese, podemos dizer que somos a mesma máquina desde 200 mil anos, e, embora as mutações ainda ocorram, a ordem, que viria a partir da Seleção Natural, está cada vez mais limitada devido ao progresso contínuo da medicina, que salva vidas que antes iriam morrer naturalmente antes de propagar seus genes.

Agora considere a tecnologia. Há cem anos não existia o que podemos chamar de computador. Na década de 1960, para armazenar 1 gigabyte era necessário o investimento de 3,6 milhões de dólares e um andar inteiro de um prédio. Em 2015, esse mesmo 1 gigabyte custa menos de 3 centavos de dólar e cabe, junto com outros milhares de gigabytes, na palma da sua mão. Hoje nós compramos na esquina um computador pessoal de bolso que custa uma fração de nossos salários e realiza incontáveis tarefas numa velocidade que, no fundo, nosso cérebro é incapaz de compreender. A distância entre os transistores dos chips foi reduzida de 0.01 milímetro (10 µm), em 1971, para 0.00001 milímetro (14 nm) — o equivalente a menos de 15 átomos de hidrogênio lado a lado. Isso permite que, em vez de colocarmos apenas 2 mil transistores num microprocessador que cabe na palma da mão, sejamos hoje capazes de colocar 6 bilhões. Com isso, nos últimos 20 anos o poder de processamento do computador pessoal aumentou cerca de 2 mil vezes. Tudo isso foi possível porque a tecnologia se retroalimenta, criando um avanço exponencial, e não linear.

Graças a esses avanços alucinantes, temos conseguido a cada ano dobrar a resolução dos scanners cerebrais. Ainda que soe frio e reducionista, até onde sabemos os animais são meramente máquinas que carregam e processam informação. Por isso, Kurzweil acredita que dentre poucos anos seremos capazes de obter tamanha precisão a ponto de criar um modelo virtual do cérebro humano. E a partir daí essa entidade poderá se autoaperfeiçoar a passos largos. Portanto, a primeira IA (inteligência artificial) efetiva, capaz de passar no Teste de Turing¹, não virá de uma programação desconectada do cérebro, tal como tentamos hoje. Os chamados artilects (sigla em inglês para intelecto artificial) nascerão a partir da emulação do nosso cérebro, tal como sugere o intrigante episódio White Christmas, da segunda temporada da série inglesa de ficção científica Black Mirror (2011). Esse é o momento que Kurzweil chama de Ponto de Singularidade, onde nós seremos ultrapassados por nossa própria criação intelectual.

A partir daí a evolução biológica deixará de fazer sentido, pois a tecnologia avançará num ritmo que nosso corpo biológico não será capaz de acompanhar. E se inicialmente a interação intelectual entre humanos biológicos e artilects poderá render experiências fantásticas, em pouco tempo ela entrará em descompasso, deixando de existir, assim como, mesmo compartilhando 98% do DNA de macacos, nós não interagimos intelectualmente com eles. O filme Ela (2013) ilustra de maneira brilhante o nascimento e declínio dessa relação entre humanos e máquinas autoconscientes. Ora, as máquinas de hoje, quando comparadas a nós, já são fisicamente mais rápidas, fortes, precisas, resistentes, enxergam melhor, ouvem melhor, processam informação numa velocidade incompreensível a nós, têm memória perfeita e virtualmente infinita, realizam virtualmente infinitas tarefas simultaneamente, e muito mais. No campo da inteligência artificial já fomos superados em diversos casos, como no jogo de xadrez (1997), no jogo de perguntas Jeopardy (2011), no pôquer (2014) e recentemente no ultra complexo jogo Go², que contém literalmente mais possibilidades do que a quantidade de átomos no Universo. No Rubik’s Cube (cubo mágico) já existem robôs que resolvem qualquer combinação em apenas 1 segundo³. Já fomos superados até mesmo em testes de QI. Muito do nosso dia a dia seria literalmente impossível caso não existissem máquinas. E tudo isso será continuamente aperfeiçoado, num ritmo cada vez mais acentuado, permitindo que as máquinas saiam da Terra, conquistem e transcendam os limites do Universo, realizando descobertas que não poderemos compreender, nem de longe.

Essa revolução pode até não acontecer por volta de 2030, como Kurzweil estima — alguns críticos sugerem que tal prazo pode estar sendo otimista demais. Mas, ao que tudo indica, parece um caminho simplesmente inescapável, ainda que ocorra 5 ou 10 vezes mais tarde. O próximo grande salto evolutivo será a transcendência da biologia para a tecnologia. Inclusive, já existem hoje equipes ao redor do mundo desenvolvendo cérebros sintéticos a fim de tratar doenças como autismo e Alzheimer, e a principal limitação no momento é a ausência de mais dados sobre nosso cérebro. Trata-se, em suma, de uma questão de tempo para que venhamos a ficar inteiramente obsoletos.

Antes de atingirmos o Ponto de Singularidade, no entanto, seremos esse ser híbrido, meio biológico, meio tecnológico. Esse é um caminho que já estamos trilhando hoje através de implantes de membros e órgãos artificiais. Um dos passos iminentes nesse sentido é inserir cada vez mais circuitos e, posteriormente, nanorrobôs no nosso corpo a fim de aprimorar nossas capacidades físicas e conter doenças. É possível que venhamos a adiar nossa morte indefinidamente, nos obrigando a lidar com questões complexas acerca da superpopulação e a escassez de recursos naturais do planeta. Se sobrevivermos a tudo isso, chegará o dia em que finalmente teremos um modelo virtual do nosso cérebro, e então o Ponto de Singularidade será alcançado. Os detalhes do que decorrerá desse evento são certamente inalcançáveis a nossa imaginação.

Alguns podem questionar esse caminho aparentemente distópico, alegando que nem todos irão concordar e aderir, o que poderia dar um outro rumo à humanidade. Mas Kurzweil é incansável em sua argumentação. Segundo ele, hoje nossa expectativa de vida é de mais de 70 anos, e é certo que nenhum de nós estaria disposto a abrir mão da tecnologia para viver o quanto vivíamos antes dela: 35 anos. Fica evidente que o avanço tecnológico é algo desejável, pois traz uma série de benefícios. Sabemos disso através de outros exemplos também, como os veículos de transporte, aparelhos de comunicação e as inúmeras formas de entretenimento, para resumir somente alguns casos. Por isso, por mais antiquado e nostálgico que alguém alegue ser, no fundo sempre haverá forte conexão com a tecnologia.

O curioso a respeito dessas questões é que elas tornam nossas posições políticas e espirituais irrelevantes. Tampouco importa se você é de esquerda ou direita, liberal ou conservador, ateu ou religioso. O máximo que nos caberá será a perplexidade diante de um destino aparentemente inexorável: a raça humana tal como conhecemos hoje ficará obsoleta; daremos lugar a uma nova espécie, mais apta, como no final do filme IA — Inteligência Artificial (2001), de Steven Spielberg.

E Kurzweil se mostra bastante confortável diante dessas mudanças. Além de acreditar que a tecnologia será capaz de estender de maneira substancial sua própria vida, ele nutre uma grande ambição: trazer à vida uma cópia semelhante de seu falecido pai. Mas mesmo as demais implicações filosóficas e sociais oriundas do avanço tecnológico não o incomodam. Pelo contrário, o empolgam a tal ponto que seu discurso jamais esconde entusiasmo diante das novas possibilidades, além de um otimismo contagiante.

Assim, não deveríamos lamentar nem temer o futuro onde as máquinas serão soberanas, pois isso representará não uma guerra, mas somente um passo evolutivo — e só estamos aqui hoje porque o mesmo aconteceu aos nossos antepassados. É possível até que continuemos a existir dentro de nossas limitações. Tampouco faz sentido desmerecermos a possível falta de interesse dessas máquinas diante da subjetividade humana, como a música, literatura, sétima arte e o amor, por exemplo, pois tais seres terão aberto incontáveis novas possibilidades que jamais entenderemos. Esse rancor velado que nos acomete seria como um cachorro lamentar que seu dono não ache o máximo correr atrás de um graveto e trazê-lo de volta para ser lançado novamente.

Se há algum objetivo maior nessa história toda? Diante de um Universo caótico, estéril e inacreditavelmente vasto, parece que só nos resta essa incansável curiosidade.

[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Teste_de_Turing

[2] http://www.nature.com/news/google-ai-algorithm-masters-ancient-game-of-go-1.19234

[3] http://www.gizmag.com/jay-flatland-paul-rose-rubiks-cube-robot/41523/