A liberdade condicional e o ENEM

Acordei pela manhã com um leve frio na barriga. Depois de praticamente três anos vivenciando a angústia ocasionada por vésperas, me deparei com mais um dia assim. ‘Amanhã é o grande dia’, frase que por algum estímulo intermitente tomava conta dos meus pensamentos e ecoava sem parar. Não, amanhã não é o grande dia. Pode ser um grande dia, mas não é o grande dia. Na verdade, não existe nada de tão determinante no dia de amanhã que não possa vir a existir em outros dias.
Então, pela primeira vez resolvi fazer algo diferente. Não fui à Europa tomar bons drinks como Luisa Marilac aquela deusa, mas resolvi aproveitar minha semana como sempre fiz ao longo de minha vida. Não substituí tardes de conversa por estudos intensivos. Não me descabelei por até agora não entender como funcionam circuitos paralelos. Li o tanto que quis sobre a república velha, mesmo sabendo que esse assunto não deve ser cobrado nesse ano. Aprofundei leituras em Kant, porque simplesmente me atraiu. Não fui à aula em nenhum dia, porque estava muito cansada mentalmente.

Segui minhas vontades? Sim.
Segui as linhas traçadas por meus professores? Passei longe!

Na verdade, ninguém mais entende sobre o tanto que a liberdade estipulada por nós mesmos nos faz bem. Ninguém pode substituí-la, ou muito menos adaptá-la a parâmetros que digam o que seria ideal ou mais eficiente. A eficiência pouco importa quando se trata de paz e satisfação pessoal. Realmente lamento pelo fato de a sociedade contemporânea associar o sucesso à resultados. E ainda pior, os imediatistas. Nada novo sob o sol que torra a geração Y.
Nessa semana, um grande amigo me ensinou sobre produzir muito em pouco tempo, vale a pena dar uma pesquisada na ‘Técnica Pomodoro’. Grande, grande ferramenta. A técnica visa propiciar um trabalho mais eficiente eliminando distrações e empecilhos. Este texto, inclusive, foi escrito desta maneira. Tirei um dia para revisar os conteúdos para a prova utilizando tal instrumento, e, ao final, tomei um ciclo para meditar. Cerca de 25 minutos. Adivinhem o que me aconteceu? Eu não consegui me manter prestando atenção em minha própria respiração por ~tanto~ tempo.
Isso só reforçou meu grande lamento sobre a reflexão que vim estabelecendo ao longo dos últimos meses: Cada vez mais temos tempo para as coisas, e menos tempo para as pessoas. Incluindo nós mesmos.

Voltar para a realidade de pré-vestibular, após ter iniciado uma faculdade, me rendeu um aprendizado que só a observação crítica poderia me propiciar… Nossa sociedade jovem e/ou que presta o Exame Nacional do Ensino Médio está doente por causa de prazos.
Estudo numa escola que não tem uma área comum com árvores ou janelas, e sempre brinquei que me remetia a uma prisão. Seria cômico, se não fosse triste. No meu último dia lá, fiquei encarando as gradinhas do muro e concluí: no sistema educacional brasileiro, vivemos em Liberdade Condicional.
Não somos encarcerados, supostamente. Passamos 8h nas escolas e mais umas 5h estudando em casa para nos conseguirmos digladiar uma vaga com 13,4 pessoas de um curso específico. E algumas 8 milhões no país.
Somos livres, desde que cumpramos determinadas condições que nos são impostas legalmente — pela sociedade e pela moral. Algumas vezes, até por nós mesmos.
Existe liberdade, desde que sigamos da maneira que nos enfiam goela abaixo a forma de alcançar esses resultados malucos, que nos dão uma realização — supostamente — inigualável.

Vi pessoas chorando por ansiedade. Vi pessoas desacreditando de um potencial construído ao longo de uma vida. Abracei um menino que se desesperou pela quantidade de candidatos/vaga da UFES ter aumentado. Me identifiquei. Tive um piriri agudo nesta véspera e ri da minha própria condição. Tentei voltar a meditar com um mantra que escrevi há três parágrafos:

Amanhã não é o grande dia, é só mais um grande dia.

Desejo a todos muita merda! E um excelente ENEM, que não é o balizador da vida, embora sempre nos afirmem o contrário.
Vai dar tudo certo.
Um grande abraço aos meus, e a todos!

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