depois de tudo que eu fiz por você?

o homem branco era dono do engenho. ele tbm era dono das fazendas de café, cacau, milho e etc. ele tinha terras por toda a américa latina e na américa do norte ele tinha enormes plantações de algodão. o homem branco tinha orgulho do bom comportamento de seus escravos. ele sabia ser firme, porém justo. acreditava que era moderno e civilizado, mas não via problema em levar um de seus negros para o tronco assim, para ensinar uma lição. era eu dever. ele sentia que estava cumprindo seu papel designado por deus, como o ser superior que sentia ser. devia ensinar esses animais a viver e serem gratos pela comida, pelo teto e as vezes até dava algum luxo para seus escravos. do que eles podiam reclamar se o alimento não lhes faltava e poderiam ter uma vida digna de trabalho duro, desde que se comportassem direito. qual era o problema em, de vez em quando, satisfazer sua luxúria com uma das negrinhas? abusar e lambuzar, fazer coisas que não poderia nem sonhar em fazer com sua esposa, afinal, as negrinhas não tinha alma, caráter, um nome a zelar. o homem branco acreditava que estava no seu direito e se espantou quando um de seus escravos entrou sorrateiramente em seu quarto e traiçoeiramente cravou uma faca em sua garganta. enquanto agonizava, com o sangue fazendo bolhas de ar no seu pescoço, a mão sobre o corte numa tentativa ridícula de estancar o sangue, o homem branco olhou indignado para a figura do negro açoitado no dia anterior e pensou “depois de tudo que eu fiz por você?”

o homem branco era marido. ele era o provedor da casa, colocava a comida na mesa e satisfazia os luxos de sua esposa. claro que ele precisava manter tudo no lugar, então as vezes era preciso dar umas bofetadas para ela lembrar quem estava no comando, mas ele nunca fez por mal. acreditava ser sua função manter a esposa e os filhos na linha, mesmo que pra isso precisasse de um pouco de violência. acreditava ser seu direito tratar aquela mulher como sua propriedade. deus fez assim, o homem pra dominar e a mulher para servir. ele aprendeu assim na igreja, ela também aprendeu. não tem do que reclamar. o homem não conseguiu processar o que acontecia quando sentiu sua garganta fechando após tomar sua religiosa dose de uísque depois do jantar. o que estava acontecendo? qual o motivo de sua esposa estar parada olhando, chorando, torcendo a barra do vestido com as mãos, porque não o ajudava? com as mãos no próprio pescoço, a ficha lhe caiu. antes de morrer soube que havia sido envenenado. ainda teve tempo de pensar na enorme injustiça que ela lhe fizera e morreu pensando “depois de tudo que eu fiz por você?”

o homem branco era patrão. era o dono da máquina e também era o dono de milhares de pessoas. ele tinha dinheiro, ele tinha propriedades e ele tinha também pessoas. a vida desses homens e mulheres, ou pelo menos algumas horas dela, eram suas. ele pagava por ela. pagava com o dinheiro que herdou do seu tataravó. sua família fora escolhida para desempenhar aquela função, aquelas pessoas simplórias não podiam cuidar do próprio destino. faziam a eles um favor. davam-lhe ocupação. as questões políticas, filosóficas e religiosas eram problema do homem branco rico, ele era dono das universidades. a informação era problema dele, ele era o dono do jornal, da TV, da emissora de rádio, da internet. até mesmo era bondoso o suficiente para dar-lhes entretenimento. essas pessoas não tinham do que reclamar. elas não tinham ideia do hercúleo trabalho que era ser dono do mundo todo. o homem branco rico não pode acreditar quando seu empregado, seu funcionário, seu colaborador sacou a arma na sua frente e explodiu-lhe a cabeça. antes da bala atingir ele pensou “depois de tudo que eu fiz por você?”

assim ele morre, sempre surpreso. ele não espera que o dia que o escravo queira sua liberdade vá chegar. ele não espera que o dia que a mulher não será mais sua propriedade vá chegar. ele não imagina que o dia que o trabalhador vá cobrar a conta e exigir mais que a migalha vá chegar. mas ele chega.

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