Dar voz a quem?

A exclusiva do Bruno hoje na ESPN foi um dos maiores absurdos que eu vi na vida.
Eu pincei três frases que quase me fizeram jogar o computador longe:
1- “…pessoas tentaram enterrar meu sonho por causa de um erro que talvez eu tenha cometido ou não”;
2- “…eu não sou bandido. Cometi um erro? Cometi. Grave? Grave. Mas isso passou, a gente tem que falar daqui pra frente”;
3- “(sobre recomeçar a vida numa outra função, longe dos holofotes do futebol) …a única coisa que eu sei fazer da vida é jogar futebol e eu não posso jogar meu sonho fora assim”.

Nenhuma emissora de tv deveria poder dar espaço para um cara que cometeu um crime proferir esse tipo de frase. E não dá pra dizer que isso é uma surpresa, e que isso não era esperado. O Bruno e o clube, até agora, não ajudaram em nada o discurso de ressocialização que eles mesmo tentam vender, seja nas entrevistas dele, seja na postura do assessor de imprensa do clube proibindo perguntas na coletiva de ontem.
Aliás, se a imprensa tivesse o mínimo de vergonha na cara, depois do que fez o assessor ontem, ninguém citaria nem o nome do clube.

Vai vir jornalista defender que o espaço dado é porque é um assunto relevante, que devem que ser ouvidos os dois lados da história. 
E a família da morta, que não conseguiu enterrar a própria filha, foi ou vai ser ouvida?
“Ah, mas a família da Samúdio não tem relevância porque aí o assunto não é esporte, sai da pauta do nosso canal”

O goleiro do Boa Esporte Clube não tinha nenhuma relevância nacional há 10 dias para virar pauta de programas esportivos e ter exclusiva pra falar esse tipo de merda.

Há uma série de jogadores com carreiras e momentos tão relevantes, assinando por times pequenos todos os dias e que não tiveram nenhuma cobertura desse tipo. Um exemplo? O Adriano Gabiru fez o gol mais importante da história do Internacional, rodou um monte de clubes sem que ninguém soubesse, sem que emissora nenhuma fosse lá cobrir alguma apresentação. E se procurar, tá cheio de exemplos.

O que se está fazendo é dar voz a um criminoso por uns pontinhos no IBOPE. E, de novo, está se dando voz a um criminoso que dá declarações que em nada condizem com o discurso da ressocialização que se tenta vender como justificativa pra que esse cara seja ouvido. Não demonstra arrependimento, acha que é vítima de um contexto e coloca um crime cometido com requintes de crueldade como um erro grave.

O cara tem que ter chance de recomeçar a vida, eu não questiono isso. Ele só não precisa de holofote pra não mostrar nenhum arrependimento de nada e ser uma vítima da sociedade.

A vítima, nesse caso, não foi encontrada nem pra ser enterrada. E é bom sempre colocar isso em perspectiva.

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