Liberdade

Não sei bem como é que eu poderia esperar algo diferente. Dia após dia, esse tipo de coisa sempre acaba se repetindo, se reconstruindo dentro de tudo aquilo em que eu acredito. Não é mais um abalo ou um deslize de uma vida perfeita. Não, o problema é que, invariavelmente, as coisas ruins sempre acabam se acumulando, fortalecendo umas às outras, enquanto as maravilhas parecem não gostar muito da convivência. O espírito humano, naturalmente, percebe o mundo segundo essa lógica, o que, no final, acaba por nos encurralar. Ficamos acorrentados numa cela que não conseguimos escapar, apesar de possuirmos a chave. Isso é algo que eu, inclusive, acho muito interessante. Talvez até cômico. É uma triste piada. Mesmo se soubermos como abrir a porta e sair, ficamos sempre inertes, deitados e brincando com a chave que abre a cela. Mas não demora muito para lamentarmos essa situação. Basta alguém passar do lado de fora da cela, e todo esse espírito muda. Alguns têm ódio pelos que saíram de sua prisão. Outros, inveja. Mais raramente, mostram orgulho, mas isso é um pouco utópico. A questão é que, instintivamente, temos repulsa pelo som que os passos dessas pessoas fazem fora da cela. Felizmente (será?), essa repulsa demora muito pouco. Logo, aqueles que se libertaram estarão a quilômetros de distância da prisão, e o único jeito de saber o que aconteceu com eles é conversando com os carcereiros, que nem sempre falam a verdade. E sabemos disso, todos os outros presos sabem disso e lhe dizem isso. Mas, na nossa cabeça, não temos escolha senão ouví-los. Eu não sei bem como é o mundo lá fora. Talvez seja melhor. Olhando pela minúscula janela da cela, parece bonito. Mas dizem que não há comida servida como aqui, não há cama garantida, e que existem vários perigos. De qualquer maneira, também não sei o quão longe estou de fazer o que vários outros fizeram e trocar a chave por alguns cigarros. Talvez isso me mate mais rápido, talvez faça o tempo passar mais rápido, talvez me permita sentir algo diferente. O que eu sei é que as pessoas, quase sempre, são as únicas que decidem o que as prende e o que as liberta. E saber disso não faz muita diferença, pois continuamos nos segurando dentro de uma fortaleza impenetrável. As pessoas lá fora, não importa o que digam, não conseguem e nem têm interesse em libertar quem está aqui dentro. É até bem curioso, parando pra pensar. Mas não quero pensar nisso agora. Hoje é dia do banho de Sol. Não vou ser o idiota que vai perder isso.