O Próximo Século

O vento calmo provocado pelo movimento dos carros vibra em meu rosto, enquanto espero pela minha carona. Alguns minutos se passam e eu consigo já ver o motorista no início da avenida. Ele se aproxima e pergunta meu nome. Confirmo, e entro no carro enquanto preparo meu rosto amistoso, pronto para 15 minutos de uma entediante conversa de mentirinha. Guio-o por entre as decadentes ruas que se escondem nos confins do bairro. Esse tipo de lugar me conforta um pouco. Não consigo explicar bem o porquê, mas sinto que as essas ruas se escondem das pessoas, também, e vivem consigo mesmas até, inevitavelmente, terem que aturar um ou outro hostil viajante passando para lá, para cá, buscando seus sonhos. Aquele motorista não era exatamente simpático, e me assustava um pouco. Não que fosse ranzinza ou algo do tipo. Ele conversava, fazia comentários genéricos e eu conseguia ouvir o som de sua risada, mas em todas as vezes que olhei para seu rosto, vi apenas a mesma expressão. Neutra, calma. Novamente, não consigo defini-la como morta. Apenas não era triste, não era feliz, não mudava. Eu sentia como se estivesse falando com uma cápsula. Alguém lá dentro conversava comigo, dava os comandos, enquanto um corpo inerte o comportava, coluna curvada para aproximar o rosto do para-brisa, as duas mãos na parte superior do volante, e um rosto tão neutro que chegava a arrepiar. Enfim, depois de alguns minutos, cheguei em casa. Passei pela portaria e chamei o elevador. Vi-o subir, descer, fazendo paradas, e escutei vozes vindas dele. Eu realmente não estava com vontade de ver qualquer vizinho. Não é como se eu não gostasse deles. É que... não. É isso mesmo. Eu não gostava deles, não tinha prazer nenhum em falar com qualquer um deles e alguns me enjoavam um pouco. Abri as portas corta-fogo das escadas e vi, lá dentro, um escuro profundo. Subi-as. O costume de evitar vizinhos era tão intenso que a falta de luzes inicial daquele ambiente não fez a menor diferença. Passo após passo, em alguns momentos eu me encontrava parado, de frente para a porta de casa. Entrei, tranquei a porta com 2 giros na chave. Não que fizesse diferença. Estava em casa.
 Ao chegar na sala, desabei. Meu cansaço psicológico finalmente atingiu meu corpo. Essas duas coisas estão sempre muito conectadas, mas nem sempre se comunicam tão eficientemente quanto se esperaria. De repente, dei-me conta. Todos os meus pensamentos tornaram-se tão fluídos. Um estranho conforto me abraçou, um conforto que não era familiar em casa. Por algum tempo, eu vinha me sentindo vazio. Sem espaço no mundo. Na verdade, não é como se não tivesse espaço para mim no mundo. É como se tivesse, sim, na minha frente. Mas eu simplesmente não me levantava para ocupar aquele lugar. Me sentia impotente, pequeno. Sentia que o mundo não queria se abrir comigo. Sentia, cada vez mais, a esperança se esvair. Mas devido a alguma ironia do destino ou favor divino, desabei no mais perfeito dos lugares. Os discos de vinil ao meu redor pareciam uma cama, e era a cama mais confortável da minha vida. A arte sempre foi um refúgio incrível. Toda a felicidade que eu não encontrava nas mazelas da vida, a arte me concedia. Os abraços que eu não recebia, o Momentary Lapse of Reason me entregava. Os elogios que eu não ouvia, o Medazzaland me concedia. Mesmo as lágrimas que eu não chorava, o Kid A libertava. E em meio ao amor que emanava daquele ambiente, eu tinha a liberdade, ou melhor, o ímpeto de pensar sobre a minha vida. Todas as fases distópicas que surgiram nos últimos tempos? Toda a angústia qur eu vivi e que vivo diariamente? É óbvio, depois que se pensa um pouco: essas coisas não são evitáveis. Uma hora ou outra, todos enfrentarão um mar de desastres. E talvez nem sempre haverá um porto seguro, alguém ou algo com o poder de te desconectar do caos. Então, aprendi a aceitá-lo. Uma visão de mundo é só uma visão de mundo até o momento em que pode te salvar ou te destruir. É desejável que salve, eu imagino. Se os dias parecerem cair através de você... bom, deixe-os ir. Dance, se quiser dançar. Cante, se quiser cantar. Afinal, somos todos apenas partes do plano mestre...