Você.

Eu acordo, como em vários outros dias, me fazendo essa mesma pergunta. Não a dedico a mim mesmo, dedico a você. Será que ainda temos essa sintonia? Por acaso você também acorda pensando nisso? Será que você ainda ouve algo que eu digo? Eu ainda tenho essa importância de fazer parar o mundo, de fazer rodar o filme que daria origem a tudo aquilo que nós, talvez, nunca seremos? Eu ainda sou o sabor que ficou após sua tão horrível partida, suas férias de todo o nosso mundo, longas como a própria morte? Eu ainda atraio lágrimas e risadas, como se as duas se completassem desde a origem dos tempos, ou agora sou só mais uma sombra que vaga sem destino ou esperança nos mais esquecidos labirintos da sua mente? Será que você ainda se lembra de como é minha voz? Eu me lembro de uma vez ter dito que acreditava em você. Não nas suas palavras, não. Em você. E então, você ainda acredita nisso? Ah, acho que não. Não digo em tom irônico ou de deboche. Nada desse tipo. O meu problema é achar que tão cedo na vida poderia ter tomado de um remédio tão efetivo e tão mortífero. Esse é o verdadeiro problema, o maior dos dilemas que permeou essa passagem, essa história. E pensar que em uma viagem, algumas palavras e um final tão trágico, uma canção tão profunda se diluiu no eco de um batimento cardíaco intenso e descompassado. Na verdade, dois batimentos. Mas ainda descompassados, nunca no mesmo ritmo. Isso é, mesmo assim, uma beleza. A imprevisível natureza do que vai acontecer amanhã. Mas o dia de hoje é um dia de descanso, talvez congelado para sempre no nascer da lua. Num céu dividido em duas metades que não se aceitam, mas todos os dias devem conviver uma com a outra. Talvez essa seja a maior ironia de todas. Se eu ainda acredito em você? Não sei. Não tenho certeza de que vejo você, talvez seja minha imaginação. Uma mente fértil na qual nasceu uma flor de cores intensas, mas muito frágil. Tão delicada que não cresceria em nenhum outro terreno, e não suportaria qualquer outro clima. Essa é a punição de toda uma vida, uma piada de mau-gosto do mundo. O fato, no caso, é que talvez não exista uma só coisa que conspire a nosso favor.
 Todas as coisas já mostraram essa natureza incontestável. Não é como se qualquer coisa que eu dissesse fosse mudar o que nem mesmo o destino mudou, não é? Aliás, não sei bem como você vê isso, mas acho que nada do que eu disse nunca mudou um só fato. Eu tentei mesmo com todas as armas que eu sabia usar. Mas nenhuma delas teve o menor efeito. Acho que é porque nunca poderiam ter efeito. Não, você já possuía um irritante e encantador dom inato de se esquivar de qualquer coisa que viesse de mim. Isso, sim, é que foi algo que trouxe algum tipo de mudança. Talvez eu devesse saber, desde o começo, que nada seria como tinha sido antes. Era, certamente, outro tipo de batalha. Nada que pudesse criar algum tipo de vida. Desse tipo de coisa, infelizmente, é comum que apareçam apenas suaves sinfonias, tão tímidas que é quase impossível ouví-las. Mas, atentamente, dá para notar que, apesar de dissonantes e nada convencionais, elas cantam sons tão belos que é difícil se negar a prestar atenção na singela melodia, ainda que ela desapareça após algum tempo de distância. Mesmo assim, talvez existam coisas que não morrem, que não podem ser extintas. Quem sabe não é nossa a sorte de que algum ser superior nos dê esse privilégio? Talvez você se deite na cama e tudo aquilo que um dia foi a mais incontestável verdade volte a ser um decreto. Talvez o mistério que persiste em ti seja apenas fruto de uma fé oculta esperando a hora. Talvez você ainda pense em mim quando ouve notícias boas, como eu penso em você. Acho que pode haver um certo tipo de diversão no meio de tudo isso, uma história de infância. Algo que possa ser guardado, como qualquer outra coisa que eu já tenha te dado. Sim, acho que, por mais desconsertada que essa história pareça, sempre existe uma linha que, mesmo sendo suspeita, antiga, nova, ou seja o que for, pode servir como amarra. Afinal, o que é que há de importante senão os laços? Não sei como é que estão as coisas agora, e nem acho que exista um bom fim pra essa história, mas queria que você pudesse ler tudo que eu disse. Que pudesse ver tudo que eu vivi. Que pudesse saber tudo que eu fiz e viver tudo que eu conquistei. Mas você não pode, não é mesmo? Outro algo ou alguém, quem sabe? Mas não você.