A vida e suas pequenas coisas

Quando descobrimos o que é felicidade, os momentos de queda são ainda mais tenebrosos, porque acreditamos que nunca mais vamos nos sentir felizes, ou pelo menos, alegres. Os pés ficam parados na ponta do precipício e os olhos já não conseguem ver o fim, que vai ficando cada vez mais distante a cada sensação de se estar atingindo o fundo do poço.

Todo mundo que percebe o que é a vida sabe que ela não será um show do System of a Down atrás do outro, quando estamos cercados de pessoas queridas, cantando enlouquecidamente e até fazendo menção de entrar no bate-cabeça debaixo de uma chuva torrencial e tudo parece bem, a vida parece boa e infinita. Quando descobrimos o quanto é maravilhoso nos sentirmos felizes, o contrário desse sentimento é tão angustiante e avassalador que acreditamos que nunca mais vamos ter aquela felicidade do show do System, o buraco fica maior e mais cheio de morcegos.

Podemos comparar à sensação de alguém que usa drogas, que sente uma euforia não imaginada e que deseja continuar sentindo a mesma vibração pelo resto da vida. Quando a bad vem, ela é estrondosa, porque a felicidade foi igualmente grande. Quanto maior for a sensação de felicidade, maior será a tristeza quando ela vier, porque nada pode superar uma felicidade tão magnânima.

Qual é a punição por termos encontrado a felicidade sem tamanho? É sabermos que, às duas da manhã de uma quinta-feira, veremos tudo caindo por terra e não teremos motivo nenhum para viver. E, simplesmente, porque não tem motivo mesmo, pois quem faz o motivo somos nós. Ninguém diz que um filme vai nos dar motivo pra viver, assistimos e “caralho, é isso, o cinema me faz viver”. Ninguém diz previamente que o heavy metal nos dará motivos para viver, ouvimos Five Finger Death Punch e descobrimos que o Ivan canta tudo aquilo que gostaríamos de ouvir e “caralho, o heavy metal me entende, ele me faz querer viver”. Ninguém diz que sexo é um motivo para querermos viver, nos deitamos ao lado de alguém, sentimos todas as enzimas produzidas pelo corpo e acordamos com cheiro de café no dia seguinte e pensamos “caralho, eu vivo por esse momento”. A vida não faz nada disso, nós podemos vivê-la deitados na cama dia após dia, ela vai continuar ali, sem motivo. E é muito mais fácil vivê-la dessa forma, sem conhecer o amor (por todas as coisas), um bom copo de cerveja num bar com os amigos, o cansaço da subida até Machu Picchu, entre outras coisas. É tão mais fácil viver sem viver, porque depois que conhecemos a felicidade, o abraço, o beijo, o sorriso… Os dias sem tudo isso serão muito piores, nos levarão às profundezas de nossa alma que ninguém nunca ousaria botar os pés, a deep web da consciência, e sair dela é muito mais difícil.

Não sei se tenho alguma doença ou se o que sinto são só angústias do não pertencimento ao mundo, a famosa peça alheia do quebra-cabeça que não faz sentido, mas sei que está cada vez mais difícil aceitar os momentos de queda enquanto assisto à felicidade dos outros (que sei que é mais superficial que o nosso conhecimento sobre a vida), está cada vez mais complicado sair do poço e me tornar o Batman. E tenho certeza de que não sou a única que tenta se esconder atrás das máscaras sociais.

Se você está no mesmo barco, a parte boa é que a viagem não será na completa solidão. Cada um pega um remo e vamos tentar preencher o tempo com os sons das águas. Se você não está nessa situação e faz parte do grupo de pessoas que conseguem conviver bem com as profundezas, apenas entenda, ouça e nada diga que possa atrapalhar a viagem. E um abraço sempre cai bem.

Livros, filmes, músicas, esporte ajudam muito a mantermos os pés no chão e entender que o êxtase descomunal descrito acima é raro, mas é possível encontrar felicidade nas pequenas coisas, como conseguir levantar cedo e disposta, ou fazer um café da manhã gostoso ou conseguir ter disciplina pra terminar um livro. É clichê, mas é verdade. Pensa comigo: não dá para viver só de show dos Rolling Stones, senão teríamos um momento feliz a cada década (e olhe lá), ou de viagens monumentais (feitas uma vez por ano e olhe lá) ou de promoções no trabalho (tem gente que nem sabe o que é isso e olhe lá). Uma taça de vinho vendo série de comédia pode até nos fazer mais feliz, porque, pelo menos, saberemos que não haverá uma intensa devastação depois que acabar e ainda teremos motivos para continuar nessa coisa louca e insana que é a vida.

Nós tentamos aprender depois de anos tentando entender porque tudo perdeu a cor. É um exercício diário, mas é importante tentar. Como diz a personagem do Keanu Reeves no filme “O mínimo para viver”: Não existe motivo. Pelo menos, nós não sabemos qual é. Porque vivemos, porque a Megan perdeu o bebê, porque aquela garota se matou… Eu não posso te consolar. A ideia de que pode se sentir segura é infantil e covarde. Ela te impede de ter experiências, mesmo as boas. (…) Pare de esperar que a vida seja fácil. Para de esperar por alguém que te salve (…). As coisas nem sempre fazem sentido. Mas você é forte. Supere as dificuldades e pode ter mais vida maravilhosa.

O lance, se é que eu sei qual é, talvez seja aprender a não depender de outros e de só alguns momentos para sermos felizes e tentar criar e ver as pequenas coisas que podem nos trazer paz, senão pareceremos sempre um workaholic em busca da nova promoção, alguém acabando com as finanças para viajar e voltar a sentir o mundo nas mãos ou um viciado em shows que gastará todos os míseros centavos, mas ver o Coldplay não será a mesma coisa que ter visto o Metallica (só um exemplo, adoro Coldplay). Algo tão importante perde significado. E, ainda pior que tudo isso, não saber lidar com o dia seguinte, com a frustração que é sair de casa sem ter um grande evento para ir no fim do dia ou ver o colega de trabalho ganhando a promoção em seu lugar. O buraco será muito mais embaixo e ficará cada vez mais difícil alcançar a borda.

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