Uma Visita

Cinco minutos de conversa no quintal mal iluminado em que acontecia a festa foram suficientes para superar a sensação inicial de surpresa. É impossível se falar em acaso quando este encontro não passa de uma questão de probabilidade. Os caminhos invariavelmente se cruzam quando se frequenta os mesmos espaços e se convive com os mesmos grupos de pessoas.

Rapidamente, se supera o polido “como vai a família?” e a conversa avança. As palavras, com cuidado, vão ocupando os espaços já conhecidos. Disto se segue o bar, o táxi, o elevador. Os dois peões caminhando casa a casa naquele tabuleiro familiar.

Cada um, porém, carrega consigo suas hesitações. Retomar aquilo que havia sido deixado para trás pode ser um erro. Mais do que isso, enquanto aquele reencontro avançava, ambos sentiam que, em algum nível, se desaguava em uma tentativa de golpe, um autoengano. É sempre perigoso tratar o presente como o passado.

A noite se alongava, contudo. Pouco a pouco, os dois se deixavam embrenhar nesta sucessão de pequenos gestos conhecidos. Palavras, olhares — ritualizados em uma espécie de brincadeira, que ambos reaprendiam, se agarrando aos fragmentos de memória muscular. Quando se deram conta, chegavam ao destino. Rolam se os dados e segue se avançando no tabuleiro.

Enquanto ele a esperava abrir a porta, pensou mais uma vez no que significava retomar esta gincana. Voltar a dar movimento a estas pequenas engrenagens. O resultado final era previsível; estava ali exposto à sua frente. Veio à sua cabeça a imagem de uma ciranda de roda. Uma ciranda vazia. Dois solitários dançarinos. Uma dança tosca, o giro sincronizado dos corpos. Movimentos que, embora precisos, são incapazes de superar o desconforto gerado pelo espaço vazio entre eles.

Ela procurava o molho de chaves no fundo da bolsa. O toque repetitivo do salto do sapato no chão de madeira comunicava o seu nervosismo; um código Morse amador. Este é o único som. Os dois compartilham o silêncio, num misto de expectativa e insegurança.

Como quem volta à superfície, ela sacou o chaveiro de bolsa. Identificou a chave correta e decididamente abriu a porta. Ele observou um esboço de um sorriso por detrás da franja que havia caído sobre o rosto dela.

O apartamento era menor do que ele lembrava, mas pouca coisa havia mudado. As mesmas paredes salmão da sala de estar. A mesma mesa redonda em um dos cantos do aposento. A televisão do lado oposto. As duas poltronas verdes que a circundavam, já que não havia espaço suficiente para um sofá.

Enquanto ela ia buscar duas cervejas na cozinha, ele se encostou sobre uma das paredes da sala. Tirou o celular do bolso. Algumas notificações. Riu para si mesmo ao perceber que o aparelho havia se conectado automaticamente ao Wi-Fi. Casadanat. Tudo junto, como se o próprio nome da conexão estivesse sujeito às mesmas limitações físicas que o próprio apartamento.

Ela voltou. Duas garrafas de cerveja nas mãos. Um pequeno gato malhado saiu da cozinha juntamente com ela. Com movimentos rápidos, o animal atravessou a sala e se empoleirou em uma das cadeiras da mesa. Os olhos profundamente negros observando, com ar de autoridade, aquele intruso, enconstado de forma desengonçada e pouco glamourosa na parede do aposento.

“É novo?” Com as palavras, o gato saltou da cadeira e se colocou aos pés do rapaz.

“Ah, já deve ter quase dois anos.”

“Hmmm. Entendi.” Ele se abaixa e faz carinho na cabeça do gato que ronrrona em aprovação.

“E tem nome?”

“Tem, Manuel.”

Ela se aproxima e lhe entrega a cerveja. Ele se endireita e pega a garrafa com a mão direita. Gelada. Os corpos muito próximos agora. Ele toma um gole. A observa por um instante. O gato desenha um oito entre as pernas dos dois.

Ele coloca a mão esquerda na cintura dela. Ela dá um passo a frente. Delicadamente, afasta a franja dos olhos. O beijo vem antes e com mais força do que ele esperava. Um movimento decidido como um pescador que lança a isca ao mar. É uma entrega e é um convite.

Ele, peixe, vai de encontro e abocanha tudo — isca, anzol, vara, mãos, braços, boca, lábios, língua. Esperança, ilusão, passado, presente. Tudo se turva debaixo do oceano.