By Pudelek (Marcin Szala) — Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=16483422

A casa crescente

Eles moravam há anos numa grande casa que aconchegava confortavelmente toda a família e, às vezes, até parecia pequena com tamanha proximidade que eles tinham um com o outro.

No almoço, eles comiam todos juntos e a mesa que os acomodava se tornava pequena. Cheia de comida e pratos, os braços se entrelaçavam passando uma refeição para o outro. Me passa o macarrão. Me vê o suco. Conseguimos fechar negócio com uma grande empresa, disse o pai. O campeonato de futebol da escola começa semana que vem, comentou o filho. E meu balé começa na terça, falou a irmã. Ah, finalmente esse governo pensa no povo, a mãe comentava o noticiário… Cada um queria contar a sua história.

O café da tarde era uma rotina, quase como um ritual e dificilmente faltava. Era o relaxamento. Apreciavam o café com pãezinhos variados, franceses e recheados, e conversavam. Como era de costume, convidaram os amigos para tomar café no dia seguinte.

Na sala de tevê, o sofá tinha espaço para todos, no entanto, dava a impressão de ser pequeno. Eles se sentavam coladinhos um no outro, até se abraçavam ou deitavam juntos. Assistiam a filmes. Vai passar um filme superlegal hoje na tevê, vamos assistir? Vamos. Você continua assistindo àquela série? Sim, está cada vez mais surpreendente. O que acha que vai acontecer com o homem? Ele está cada vez mais doido, acho que vai acabar cometendo grave crime. Já terminou de ler o livro? Estou quase. Termina logo. Quero ler…

Os anos se passaram e a casa se tornava grande demais. O filho mais velho tinha espírito aventureiro e partiu. Adquiriu nova cultura e pensamento próprio. Viajava bastante e visitava a casa dos pais vez ou outra. Os outros três permaneciam, porém se tornaram distantes.

Certa noite, a esposa desceu até a cozinha para beber água. Sonolenta, olhos entreabertos, acendeu a luz pensando ser a cozinha e caminhou em direção onde acreditava estar o filtro, mas logo estranhou. Não estava na cozinha, era outro cômodo vazio que não deveria estar ali. Estava sonhando. Apalpou as paredes e o chão. Eram sólidos. Reais. Deu tapinhas no rosto para acordar, não estava sonhando, era realidade. A casa tinha ganhado novo cômodo misteriosamente. Apesar da inverossímil rapidez, resolveu perguntar.

— Querido, você mandou construir novo cômodo entre a sala e a cozinha?

— Não, por quê?

— Há um novo cômodo na casa.

— Volte a dormir, você está sonhando.

Ela insistiu, arrancou ele da cama e o arrastou até o novo aposento. É verdade, disse ele embasbacado. Analisou, olhou as paredes, alisou-as, verificou o teto pensativo. Acabamento impecável. O local se encaixaria perfeitamente como copa e eles adoraram pois achavam a cozinha pequena. No dia seguinte, colocaram a mesa na nova copa.

O marido desfrutava do novo cômodo, lia o jornal, tomava café com bolacha e esperava a refeição ficar pronta. A esposa preparava o almoço e, apesar de ter gostado de a casa ter ganhado novo aposento, alguma coisa a incomodava.

— Querido! Pode vir me ajudar com o almoço? E lá ia ele reclamando de cara feia. Alguém tinha lhe tirado o sossego.

E assim passou mais um tempo. Ele feliz com a copa e ela incomodada.

Certa vez se sentaram no sofá para assistir à tevê e logo estranharam. Havia espaço entre eles, o móvel tinha alongado. Gostaram, agora podiam se sentar e até deitar sem um incomodar o outro. Assistiam ao noticiário em silêncio, cada um tranquilo em seu canto. O marido adorava cada dia mais o sofá ampliado, praticamente tinha um só pra ele se deitar. Mexia-se, revirava-se, contorcia-se feliz como os gatos fazem com as almofadas. Ela, entretanto ficava encolhida na outra extremidade, às vezes olhava pensativa e emburrada para o marido. As crianças brincavam no meio deles.

— O que será que pode acontecer mais? Estou adorando as mudanças. De repente, ganhamos um cômodo sem gastar um tostão e depois um sofá confortabilíssimo. Ela simplesmente respondeu não sei, sem se virar, dando de ombros e pouco se importando. Eu quero um campo de futebol! Uma piscina! Quero um videogame! Ah, uma montanha-russa é bem mais legal, disseram os filhos.

Os dias passaram e eles se acostumaram com as mudanças. Antes, dialogavam num tom de voz baixo e às vezes cochichavam. Agora, era preciso gritar.

— Tem alguém em casa?

A casa, novamente, ganhou mais um aposento. Dessa vez uma caverna de pedras espessas que embora ficasse quase no meio da casa era pouco acessível, com entrada estreita. Não era muito grande, mais ou menos, o tamanho de um quarto e com pouca luminosidade. Eles nem se espantavam mais, apenas olhavam o que havia de novo. O marido, maravilhado, olhos brilhando de alegria, ficou encantado com a caverna. Perfeita, disse ele e fez dela o seu escritório, levando toda a sua papelada e material para lá.

Quase ao mesmo tempo, apareceu um videogame, que ficou no quarto de um dos filhos. Eles ficavam o dia todo jogando, até esqueceram da tevê.

Eles passaram a gritar mais e mais.

— Onde está o seu pai? perguntava a mãe para os filhos.
— Puts… tá na caverna, mãe! Respondiam sem tirar os olhos do jogo.

Ela suspirava e deixava os ombros caírem, desgastada.

— Ei! Tô te chamando e você não responde! Pode vir me ajudar? Tem um monte de coisa pra fazer! Não posso fazer sozinha!
— Que é? Gritava ele tirando a cabeça pra fora da caverna.

Era cada vez mais raro ver o marido, vivia enfurnado na caverna. Às vezes perambulava pela casa, balbuciava algumas palavras incompreensíveis e voltava para a caverna.

Eles sempre acabavam se conformando com os novos cômodos que magicamente brotavam pelo caminho. Berravam.

O marido arqueava as costas, cabisbaixo, a barba por fazer, maltrapilho. Grunhia palavras para a mulher e os filhos, que não o entendiam, buscava pedaços de comida na geladeira e voltava para a caverna cada vez mais densa.

A esposa cada dia mais desgostosa, o olhar cansado, dores pelo corpo, reclamava do marido com os filhos quando apareciam pela casa.

— Seu pai não faz mais nada. Vive naquela caverna.

Os cômodos não só surgiam como também pareciam mais distantes. Levava-se mais tempo para caminhar da cozinha ou da sala até os quartos ou de um quarto a outro.

Cada um gostava de uma coisa e se entretinha cabisbaixo com seu aparato, o computador, o celular, o videogame, a televisão e o rádio com fones de ouvido.

— Você viu o que postaram na rede social?
— Vi! Legal!

O homem se tornara irreconhecível e talvez nem ele se lembrava de quem era. Balbuciava, grunhia, gritava. Quando lhe dirigiam a palavra, vociferava. Batia com as mãos no tórax, no chão, nos móveis. Perdera a língua duplamente articulada.

Chegou um dia que a casa tinha tantos cômodos que eles se encontravam raríssimas vezes e nem se conheciam mais. Cumprimentavam-se como estranhos.

— Está calor aqui. Que horas são? E seguiam.