Fonte: https://goo.gl/HG2oJf

Casa tomada

Releitura* do conto homônimo de Julio Cortázar

A casa era herança da família. Há mais de cem anos, foi construída por nossos bisavós que vieram da Espanha. Permanecia imponente no quarteirão no meio de casinhas modernas e sem graça, exercendo um tipo de força sobre elas. Era avistada de longe, aliás, era impossível passar pela redondeza e não virar a atenção para ela. Todos gastavam uns minutinhos contemplando-a.

Poderiam viver ali oito pessoas tranquilamente. Com os anos, foi passando de um para o outro e hoje apenas meus irmãos Irene e Alberto persistem no casarão. Antigamente as famílias eram grandes e as casas acompanhavam o tamanho para abrigar todos os membros confortavelmente. A nossa era realmente enorme. A sala de jantar, decorada com fina tapeçaria francesa, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, com fundo para a rua Rodríguez Pena. Somente um corredor com sua maciça porta de mogno isolava essa parte da ala dianteira, onde havia um banheiro, a cozinha, dois quartos nos quais dormiam meus irmãos, o salão central e um corredor de entrada separado por uma porta-cancela.

Minha irmã Irene era muito quieta e exímia tricoteira. Tricotava qualquer peça com esmero e agilidade. Quando não gostava de algo era capaz de desfazer e recomeçar tudo de novo. Fazia roupa para toda a família. Distraía-se por horas trançando as agulhas uma na outra. Havia fios para todos os lados e novelos em um cestinho. Às vezes, as linhas eram tantas que lhe enchiam o colo e se esparramavam pelo chão. Cuidadosa, não se perdia nos fios.

Eu ficava horas contemplando Irene tricotar. Quando tricotava, parecia que só existiam a linha, as agulhas e ela no mais absoluto silêncio. Me admirava a agilidade dela em tecer os fios como duas agulhas mecânicas. Algumas vezes parava e perdia o olhar no teto ou para o nada, sonhando. As mãos não sossegavam, como se continuassem sua atividade com as agulhas. Meu irmão nos finais de semana comprava linhas para Irene. O danado tinha mesmo bom gosto com as cores, escolhia certinho as que ela precisava.

Alberto era um apreciador da literatura. Vivia com um livro debaixo do braço. Quando ia ao centro da cidade, passava nas livrarias para checar se tinha algum título novo da literatura francesa. Os livros se tornaram coisas raras em toda Argentina a partir de 1939. Na maioria das vezes só havia livros velhos e escritores ruins. Lia a maior parte do tempo. Terminava de ler em menos de uma semana e logo em seguida já procurava outro autor.

Irene e Alberto cuidavam da casa como um ritual. Acordavam cedo, varriam e limpavam cada cômodo em conjunto e depois passavam para a cozinha, almoçando pontualmente ao meio-dia. Conversavam sobre a silenciosa casa cochichando naquela imensidão de vazio. Eles pareciam viver num mundo paralelo dentro da casa. Para os dois, era como se ela tivesse vida própria e os conduzisse também.

Meus irmãos eram duas pessoas complicadas de lidar. Precisava falar duas, três, quatro vezes para eles e mesmo assim não era garantia de que se lembrariam. Os dois teimavam comigo que havia algo de muito anormal, diziam que escutavam ruídos surdos pelos cômodos. Eu lhes assegurei centenas de vezes que era porque ela era muito antiga. Fazia barulho mesmo. Mas não adiantava.

A casa era ótima e não pretendíamos vendê-la, talvez passaríamos para outros familiares, pelo menos foi nosso combinado, mas ela precisava de reformas. Trocar o assoalho, reparar o teto, pintar, essas coisas. Combinei com eles que começaríamos a reforma pela sala de jantar e pela biblioteca por serem as partes mais difíceis e poderiam continuar no resto da casa sem grande problema. A gente queria manter a originalidade o máximo possível. Eu coordenaria tudo. Eles jamais conseguiriam fazer um trabalho desse tipo.

E então começamos. Demorou quase um mês para revitalizarmos a sala de jantar e a biblioteca. São lugares delicados e revitalizamos os móveis, a estante de livros, o piso de tacos e pintamos as paredes. Fizemos bastante barulho e precisamos trabalhar até tarde da noite porque os materiais atrasaram. Além disso, foi difícil encontrar peças semelhantes.

Nesse período, vi muito pouco meus irmãos pela casa, achei que eles gostariam de ajudar. Às vezes os via correndo e fugindo nas pontas dos pés sem fazer barulho. Eu chamava eles, gritava seus nomes e não tinha nenhuma resposta. Outro dia, vi eles encolhidos, abraçados e tremendo de medo num dos banheiros.

— Que fazem aí?

— Ouvimos de novo barulho pela casa.

— Sim, é a reforma. Estamos terminando a biblioteca e a sala de jantar. Vocês podem ir lá ver como está ficando e ajudar.

— Reforma… Sim, vamos, vamos ajudar.

Eles chegaram a ver a sala de jantar e a biblioteca revitalizadas, quase acabadas. Minha irmã gostou da sala de jantar, da mesa grande e lustrosa. Já meu irmão se encantou com a estante novinha. Por um instante vi os olhinhos dele brilharem.

— Nós podemos voltar a almoçar aqui. Decoraremos a mesa e faremos um lindo jantar. Até a comida vai ficar mais gostosa — disse ela sorrindo e orgulhosa, com as mãos unidas e os dedos entrelaçados.

— Vejo todos os meus livros enfileirados e organizados por autores. Vai ser muito gostoso olhar para essa estante. Um ar de imponência e classe. E ali — disse apontando — , colocarei minha poltrona e farei o meu cantinho de leitura. Você pode colocar sua poltrona neste outro canto e vir tricotar aqui, Irene.

Eles viraram o corredor, atravessaram a porta de mogno saltitantes, abobalhados e já esquecidos do que tinham visto. Tenho essa impressão pelo que se seguiu.

Passei mais uns dias sem vê-los. Não os procurava muito, mas acho que se escondiam debaixo da cama ou nos armários. Cansei de avisar sobre a reforma. Quando ficam inquietos os lapsos são mais frequentes.

Eram bastante cuidadosos com suas coisas, mas após a reforma começar, encontrava livros, agulhas e linhas jogados pelos cômodos. Encontrei até linhas com nós. Irene nunca havia feito isso antes.

E então passamos para a cozinha e o banheiro, mas sem antes dar um jeito de abrir a porta do corredor porque eles a trancaram. Irritado com os dois e pensamentos a mil, por um momento até pensei que teria que arrombá-la e já imaginava maneiras de como fazer, mas, um pouco mais calmo, lembrei que era simplesmente sair pela porta do fundo que leva para a rua detrás da casa e dar a volta no quarteirão. Do outro lado, consegui abrir e remover a trava. Não adiantaria arrombá-la. Cuidar dos meus irmãos requeria mais energia minha do que coordenar a reforma.

Perguntei a eles sobre a porta trancada e mais uma vez deram de ombros. Se esqueceram da reforma na casa e não se lembravam de nenhuma porta trancada. Para eles, nada tinha acontecido, apenas diziam que os barulhos tinham se intensificados vindo da sala de jantar e ficaram com medo do que poderia ser. Eu percebi que naquele momento estavam mais perturbados e esquecidos do que nunca. O problema deles tinha se agravada. Estava furioso, mas diante dessa situação, me acalmei e pedi para eles voltarem para seus quartos.

Calculei uma semana para o banheiro e mais outra para a cozinha se tudo corresse bem. Naquele mesmo dia, começamos a reformar o banheiro. Trocaríamos o piso, os azulejos, o vaso sanitário e o bidê. O armário deteriorado e carcomido também seria substituído. Iniciamos quebrando o piso.

Poucos minutos depois, lembro-me de ter ouvido um estrondo na parte da frente de casa. Corri ver o que era, a porta estava quebrada e não vi mais Irene e Alberto. Era tarde da noite. Fui atrás deles, andei por toda a vizinhança, gritava seus nomes e perguntava para pessoas que encontrava na rua. Ninguém tinha visto eles. A polícia também não os encontrou. O giroflex iluminava toda a rua, cegando meus olhos, dezenas de pessoas fora de suas casas tentando entender o que acontecia. Neste ponto conto pelo que me contaram. Chegaram a me dizer que meu olhar era de pânico e mal consegui segurar um copo de água que haviam me dado. Meu rosto suava. Via flashes de luzes, uma gritaria ao fundo, tiveram que me acalmar e me colocar em repouso. Fui retirado do local e não me lembro de mais nada daquela noite.

Há uma floresta de difícil acesso nas proximidades. A polícia acredita que eles tenham ido para lá. As buscas continuam. As horas não passam. Ando de um lado para o outro pela casa. Olho a rua pela janela a cada minuto e de hora em hora ando pela vizinhança à procura dos dois. Interrompi a reforma e o banheiro está dando para o gasto, simplesmente.

Penso que poderia ter feito alguma coisa para evitar tudo isso. Ter tratado eles melhor, cuidado deles, acompanhar a patologia que eles tinham. Se tivesse ficado mais perto deles, eles precisavam de cuidados. E se eu tivesse deixado eles tratarem da reforma junto comigo? Fica esse sentimento de culpa.

Essas cenas são nítidas em minha cabeça. Imagino eles correndo pela casa, cochichando assuntos sem pé nem cabeça, mergulhados em suas loucuras. Irene tricotando e Alberto entretido num livro. Vejo a felicidade no rosto deles em fazer coisas tão simples do dia a dia, como o dia em que viram a sala de jantar e a biblioteca novinhas. O rostinho alegre da minha querida irmã. Meu irmão imaginando seu cantinho de leitura. Ver os espaços que antes eram ocupados por eles vazios me dá um aperto no coração. Depois que se foram, a casa virou um monstrengo sem alma.


*Esta releitura do conto Casa tomada, de Julio Cortázar, foi um exercício de uma oficina literária ministrada pelo escritor Rafael Gallo, no qual era proposto uma mudança de narrador.