O livro esquecido na minha estante

You might not have been my first love. But you were the love that made all the other ones irrelevant. – Rupi Kaur

Eu escrevi em um diário que não ia mais escrever sobre você. E eu decidi cumprir essa promessa, vou escrever sobre amor sem você, vou te marcar sem precisar escrever o seu nome, sem desenhar as suas cores, de maneira nenhuma dando a entender que lembrar dessa história, que você criou na minha vida, é algo frequente. Vou adaptar meus poemas antigos, escrever sobre a agonia e tudo o que você causou, toda essa bagunça, sentimentos meus que não são meus.

Ou não vou fazer nada disso e esperar. Pelo que? Por quem?

Não sei. Ultimamente, sei de muito pouco.

Mas eu acho que não vou mais escrever sobre você. Acho que não consigo. Você sozinho, a sua imagem, o sol que você foi e não foi, tudo o que poderia ter sido. Não vou fazer referência ao menino que conheci nem ao homem que não conheço. Nada disso é seu, tampouco meu. Essa história virou um livro de sebo antigo, desses que ninguém quer, que mofam na estante e causam nostalgia só de olhar. Já se tornou parte de mim sentir saudade do que não vivi, mas também me habituei ao furacão que eu me tornei, os meus sonhos transformados em planos, a dor de ser veneno e, cada vez menos, cura.

Eu gosto desse furacão.

Você ama Pulp Fiction. Mas você nunca entendeu o que o Tarantino quis dizer com aquela cena da Mia sofrendo uma overdose, os olhos perdidos? Você também nunca entendeu a Ofélia de Hamlet, nem as mulheres do Gabo que você tanto adora. Tampouco leu Ferrante. Existem segredos que só são descobertos ao se tornar mulher.

Você não entende nada a respeito de um amor tão verdadeiro que assume tons de ficção só para comprovar que sua existência é possível, ao mesmo tempo que é feito de pedra e sonho.

Existe muito que você não sabe. Muito que ficou subtendido, a distância na qual você sempre ficou confortável sempre foi o meu inferno. A noite em que eu me salvei, a noite em que eu caí de um muro enorme em busca de você, a noite em que eu quis desaparecer para você nunca mais ouvir falar de mim. Os dias sonhando acordada, os caminhos que eu fiz sozinha. Tentei te cobrir de todas as formas; tentei de proteger de mim. Tentei. Tentei. Tentei.

Às vezes, ainda tento.

Porque essa é questão que enlouquece todo mundo, são nessas coisas grandes disfarçadas de pequenas que provam que o amor verdadeiro é um filho que se recusa a sair de casa. Você permanece em mim. Em tudo o que eu faço. “Te amo como se amam as coisas obscuras, secretamente, entre a sombra e alma.”

Você teve a audácia de dizer que esse soneto era muito intenso – mas ainda sim, bonito.

Porque o mundo pra você se apresenta quase quadrado, a vida é fácil e você só condensa seus sentimentos em duas ou três frases pra depois se esconder. Eu te conheço. Você acha que não, mas eu conheço esse jeito de errar, essa ausência.

Esse medo.

Meu melhor amigo, um deles, uma vez disse que você só iria reparar quando eu fosse embora. Eu fiz falta, não fiz? Foi assim que você disse quando eu passei todos aqueles meses longe. Foram meses eternos, se arrastaram.

Foram meses horríveis.

Ainda sonho que você vai aparecer. Ainda sonho que você não está geograficamente impossível e que eu sou forte o suficiente para te ver chegar. E ir. Sempre ir. Nunca ficar, você sempre tão atento… “Amar é estar distraído”, mas nem brasileiro você é, por que Guimarães Rosa iria te soprar, no canto da mente, alguma reflexão? Eu escrevo tudo isso, esse texto lâmina, esse sonho pesado, só para atrasar o adeus que eu preciso dar.

Fiz o mesmo com o diário, codinome beija-flor.

Tchau – eu acho.

Eu espero.

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