Anedotas de Carnaval Paulistano

Personagens que costumavam ficar em São Paulo para fugir da festa tiveram seus planos invadidos por 9 milhões de foliões

Na padaria Sonho que Caiu do Céu, onde costuma ir toda manhã de domingo, sem falta, bem cedinho tomar um pingado e comer pão na chapa enquanto folheia o jornal e puxa assunto com o chapeiro na maior tranquilidade, Seu Antonio encontrou uma fila de 7 garotas de biquíni e saia de ballet, igual da sua neta de 9 anos, aguardando para usar o banheiro. Teve a impressão de que uma nova epidemia de infecção urinária havia se alastrado pela cidade, fazendo com que mulheres de 20 e poucos anos de idade urinassem glitter — era a única justificativa que Seu Antonio conseguia elaborar para o rastro brilhante deixado por elas no chão da padaria. Buscou seu lugar de sempre no balcão, mas estava ocupado, assim como todos os outros banquinhos. Contrariado, sentou-se em uma mesa e aguardou ser atendido, o que não aconteceu por pelo menos 5 minutos. Tomou seu café e nem quis saber de pão na chapa, sem graça isso de comer sozinho. A caminho do caixa espiou para dentro do balcão procurando seu amigo chapeiro:

“E seu Corinthins, hein, Jorge? Tomando do Santo André, pô”

Jorge, que segurava em uma das mãos dois pratos, um com duas e esfihas e o segundo com uma coxinha, e na outra mão dois latões de cerveja Skol, ficou na ponta do pé para enxergar Antonio através das pessoas que cobriam o balcão:

“Hoje não tem prosa, Seu Antonio. Hoje tem carnaval!”


Solzão a pino, quase meio dia, relógio marcando 34 graus na rua e um aviso: Carnaval, enfeitado com confetes e fitas. O Carteiro José chega na esquina da Rua Barra Funda, últimas entregas da segunda-feira. Primeiro quarteirão: muito lixo, cheiro forte de xixi, José já previu o pior. Avançou bravamente enquanto surgiam personagens quase sempre semi nus, quase sempre cobertos de brilho, com uma garrafa plástica na mão, ocasionalmente com uma tiara de diabo, unicórnio ou mickey. Ou minnie, não sabia dizer. Até o quinto quarteirão conseguiu jogar os envelopes pelas garagens sem maiores problemas — ainda que com os problemas de sempre: O cachorro do 430 insistia em destruir os folhetos de promoções do supermercado no instante em que encostavam no chão e o senhor do 617 esperava na porta por uma carta que nunca vinha, insistindo que José a escondia. Lá pelos milhares a música estava alta e a densidade de pessoas circulando também. José sentia que teria que enfrentar a multidão logo ali adiante da curva.

Não deu outra. No número 1.322 cerca de quatrocentas pessoas se amontoavam em torno de um caminhão em que um rapaz de meia calça laranja e cara pintada entoava “… mil e uma noites de amor com você”, acompanhado por quatro ou cinco figuras que batiam tambores e pulavam. José olhou no relógio de pulso, meio dia e trinta. Pensou no almoço que teria quentinho, à mesa, ao chegar em casa. Decidiu seguir em frente e confrontar os seres que vinham de todos os cantos da imaginação: monstros, fadas, sereias, unicórnios e…

“Que tudo sua fantasia de carteiro, tá perfeita! Tira uma selfie comigo”


Dona Maria passa o dia aflita esperando o filho de 17 anos que saiu pela primeira vez do bairro com seus amigos para dar um rolezinho. “É bloquinho, mãe, é na rua, é de boa”, ele explicou, tentando acalmar a mãe. Juninho, Cleber e Adilson, os amigos de sempre, apareceram no portão logo nove da manhã, com uma garrafa de refri, mal conseguindo conter a animação. Adilson, que é o mais atrevido, ligou o som e puxou Dona Maria pra dançar o lepo lepo. Subiram num ônibus e lá se foram, “Charanga é o nome, é no centro”, explica Juninho.

As horas passam, Dona Maria prepara um jantar, “vai chegar esfomeado, não come nada na rua, conheço a figura”, escurece, comida esfria. A mãe ouve, ao fundo, as festas nos vizinhos, música animada, gente feliz. Perto da meia noite e não consegue dormir. Ouve o barulho do portão. Seu filho entra na sala, sem camisa, descabelado, Dona Maria jura que viu batom na sua boca, e se joga no chão.

“Que isso, meu filho, você tá bêbado, se drogou? Colocaram coisa na sua bebida! Eu avisei pra não aceitar nada de estranho, meu filho, meu filho!”

O rapaz se vira no chão, de barriga pra cima, encara o teto com o olhar perdido.

“Eu tô é louco de Carnaval”.

Na imagem: Tarado Ni Você profana o Theatro Municipal