Crônica da Felicidade

(não felicidade crônica)

Quando meus pais se casaram, data que completará 30 anos dezembro próximo, minha avó materna os presenteou com uma muda de árvore da felicidade. Eu não sei muito sobre a vida da árvore antes da minha chegada — atitude comum de nós, filhos, ignorar a história dos nossos pais antes de existirmos nela — mas me lembro dela desde que me lembro das coisas.

A árvore da felicidade dos meus pais cresceu junto comigo. Acompanhei minha mãe cuidar dela com todo carinho, trocar de vaso quando o atual ficava pequeno demais para suas raízes, não ter medo ou nojo de meter a mão no adubo se isso fosse preciso, podar os galhos da maneira certa para que ela pudesse crescer melhor, desesperar-se com uma ocasional crise de pulgões mais grave que lhe ameaçava a vida ou ainda um evidente desânimo em épocas que estava mal posicionada na sala e pegava pouca luz.

Fui mais alta que a Felicidade por boa parte desse tempo, aí aconteceu de eu parar de crescer e ela me passou. Mais ou menos nesse mesmo período eu mudei de cidade e saí da casa dos meus pais.

Na primeira casa “minha” que morei minha mãe me deu um vaso pequeno com uma muda daquela árvore da felicidade que foi presente da mãe dela quando ela se mudou.

No começo ela era bem sozinha porque menina nova em cidade grande não pensa nessas coisas de colocar planta em casa, isso é coisa de mãe só — é o que a gente pensa nessa época. Ela recebia sua dose de água ali dia sim, dia não e via os dias passarem com bastante luz da janela. Não posso negar que em mais de uma ocasião ela deve ter tomado uma dose de cerveja também. Teve até uma companheira de vaso meio suspeita, que se mudou logo e ficaram boas amigas em vasos diferentes.

Essa Felicidade já viu três casas, já dividiu a moradia com quatro pessoas além de mim. Houveram períodos em que ela foi cuidada com muita dedicação. Pano úmido pra tirar a poeira cinza da cidade suja das folhas, respirar melhor. Nessas épocas é fácil crescer, era um galho por semana: pra cima, pros lados. Em outros tempos, na correria, a Felicidade acaba ficando meio de lado. Ela precisa chamar atenção. Amarela, alguns galhos caem. Hora de parar um tempo e tomar conta disso. Pulgão, doença grave, ameaça de morte não tivemos nunca. Mas já teve birra uma da outra. Me lembro de sentar todo dia na mesa do jantar e encarar seus galhos que se recusavam a crescer mês a mês. Foi mais de uma estação sem nenhum brotinho. A birra passou e hoje ela tem três vezes o tamanho que tinha quando chegou.

As companheiras variaram muito, principalmente nessa última casa: foram vasos de muitos tamanhos, cores, espécies. Uns mais discretos e outros espalhafatosos. Teve vaso que era só pra enfeitar e vaso que a gente arranca um pedacinho pra fazer tempero. Tem vaso que já ta aí há um tempão e vaso que chegou e foi embora rapidinho. Também tem aquele vaso que fica pouco mas deixa uma dica pra ela crescer mais forte e saudável.

Há um mês nos mudamos de novo, dessa vez somos só eu e ela. Sei que temos muito crescimento pela frente, é certo que ela terá períodos mais e menos saudáveis. Talvez ela ainda tenha os tais pulgões que tanto desesperavam minha mãe, talvez eu passe um tempo sem lhe dar muita atenção, fascinada com as novidades e a rotina. Eu espero que ela cresça e fique do meu tamanho, maior que eu, no ritmo dela. Tenho sorte de ter ela ali na sala pra me lembrar qual foi sua primeira casa, de onde ela vem, mas também tudo que ela já passou entre ali e aqui. Felicidade sim.

Felicidade casa vazia