Crônica sobre Percurso e Viagem

Ser filho e ser adulto ao mesmo tempo é uma composição difícil.

Giovanna Indelicato
Jun 3, 2018 · 5 min read

Eu me tornei adulta longe dos meus pais. Saí da casa deles aos dezessete anos para fazer faculdade. Estava geograficamente perto, separados por uma viagem de apenas uma hora de ônibus. Sempre nos encontramos com frequência e nos comunicamos diariamente desde o invento do smartphone.

Eu dependi financeiramente deles por muitos anos ainda. Eu precisei pedir autorização para muitas coisas — viagens, aquisições, escolhas. Eu ainda sentia que precisava da aprovação de deles e lhes devia satisfação. Mas eu não estava toda noite na mesma mesa de jantar para contar do meu dia. Eles não viam a luz do meu quarto acesa até tarde estudando. Ou o barulho das chaves na madrugada em pleno dia da semana. O despertador ignorado para a primeira aula. Às vezes para a segunda também. O rosto dos novos amigos que frequentavam a casa.

Em alguma viagem quando éramos apenas filhas e minha mãe sofrendo a sina de ser mãe e não aparecer em nenhuma foto de viagem.

Minha separação foi longa. Por anos ainda, “casa” era o meu quarto de paredes azuis e um mural de fotos de adolescentes e ingressos de shows. Os amigo eram os mesmos do colegial. A cidade grande ainda me assustava, eu me sentia vulnerável e perdida nela. A saudade era grande demais para mais de cinco dias. O namorado morava no interior. Eu sofria por acompanhar o crescimento da minha irmã somente aos finais de semana. Naqueles tempos, a única pessoa que eu percebia mudar era a minha irmã. Eu não percebia que fazer supermercado e poder escolher o que e de qual marca comprar, que pegar ônibus errado muitas vezes, que frequentar festas open bar e chegar segura em casa, que dormir fora sem que eles soubessem, que estudar porque era minha obrigação e não porque eles apareciam na minha janela para verificar, estava me mudando também.

Ao poucos, “casa” passou a ser aquele apartamento com móveis de segunda e poucos armários. Os amigos tomaram seus rumos — e os novos, os frequentadores que meus pais não conheciam o rosto, ficaram mais próximos e mais íntimos. Não havia mais namorado. Comecei a trabalhar e um mundo de possibilidades financeiras e sentimento de responsabilidades se abriu para mim. Conheci no trabalho pessoas de outras histórias e outras profissões. Comecei a frequentar lugares com os quais eu me identificava. As visitas à casa dos meus pais diminuíram. Copa do Mundo, Ano Novo, Festas Juninas, Halloween passaram a fazer parte da minha vida de adulta. Separada da minha vida de filha, que ainda tinha Natal, Dia das Mães, Dia dos Pais, Páscoa.

Chegada a época, minha irmã passou na faculdade e veio se juntar à mim. Eu percebia agora minha irmã passando pelas mesmas etapas que eu havia passado. Eu percebia agora como eu havia mudado. Mas eu não percebia meus pais mudando. Para eles, agora eu vejo, o processo de ser tornarem pais de filhas adultas também foi longo.

Crescer é enxergar os pais como pessoas. Isso não se refere apenas a aceitar seus defeitos, seus erros. Também a respeitar sua história, sua individualidade. Não só reconhecer que eles existiam antes de nós, filhos, mas também que continuam existindo, que sua história continua prosseguindo. Que eles, assim como nós, continuam aprendendo, mudando, se adaptando.

Para isso, muitas vezes eu precisei enxergar meus pais pelos olhos dos outros. Eu nunca achei a história de como meus pais se conheceram muito interessante até mencionar para uma professora de geografia na sexta série e ela ficar encantada. Eu não valorizava os dotes culinários da minha mãe até meus amigos, na adolescência, pedirem para que os grupos de estudo fossem em casa para que pudessem desfrutar dos cafés da tarde. Eu não apreciava o zelo do meu pai com a casa até precisar de encanador, eletricista, mecânico, marceneiro, entre outros e nada nunca dar certo de primeira. Eu ressenti as regras rígidas sob as quais cresci até refletir, hoje, sobre as consequências positivas da disciplina na minha vida.

Eu acho que os pais fazem esse exercício de tempos em tempos também. Talvez para eles, nos enxergar como adultas requeira que nos enxerguem pelos olhos dos outros. Por muitos anos depois que saí da casa com o quarto azul, meu pai não entrava na minha casa. Ele ia até a porta do apartamento e se despedia. Hoje é um frequentador assíduo da cama extra que tenho. Nos encontramos pela manhã para tomar café e ele segue para seu compromisso na cidade enquanto eu vou para o trabalho. Recentemente ele me disse: você não tem uma boa tolerância a dor, filha. Provavelmente lembrando-se da primeira vez que sofri um acidente de bicicleta enquanto me locomovia na cidade e, apesar das consequências terem sido apenas três pontos e um joelho inchado, liguei aos soluços implorando que viesse me ver no hospital — quando conseguiu chegar, eu já estava sendo liberada. Ele falou isso lembrando-se desse episódio, mas sem saber de todos os outros incidentes e acidentes que tive depois em que, após rolar por cima de para-brisas ou bater a cabeça na guia, segui pedalando e sangrando até meu destino. Eu cresci com meu pai me acusando de ser mandona e hoje recebo feedbacks profissionais positivos em relação a liderança. Minha irmã cresceu com a fama de bagunceira enquanto eu era a organizada, e hoje acumulo cinco celulares perdidos e ela, nenhum. Meus pais não nos ligam de manhã aos finais de semana porque ainda acreditam que dormimos até a tarde. Meus pais dizem que somos rebeldes quando contamos de alguma desavença no trabalho, como diziam quando não nos dávamos bem com algum professor na escola. Por anos, qualquer nome masculino que surgia significava para eles um novo namorado, hoje eles perguntam pelos nossos amigos quando não os vêem em fotos nas redes sociais.

Não me leve a mal: nós ainda brigamos muito. Sobre sair ou ficar em casa para o almoço do domingo. Sobre posicionamento político. Mas também sobre decisões que eu e minha irmã tomamos em nossas vidas que eles não consideram a melhor para nós. Sobre a forma como fazemos coisas que não são exatamente igual à deles. Ainda somos uma família, mas uma família formada por quatro adultos. Dois deles com muito mais experiência em ser adultos.

Ontem meus pais foram viajar. Ficaremos mais de um mês sem vê-los. Eu tenho certeza que já ficamos, vez ou outra, tempo equivalente sem nos encontrarmos, mas sempre por relapso meu, filha, e nunca por decisão deles. Só de saber quão longe eles estarão nos próximos dias a minha parte filha sente-se desamparada e desprotegida. A parte adulta, porém, tem tudo sob controle, e fica muito contente de ver os pais também sendo adultos, com histórias, desejos, planos. Boa viagem!

Como adultas, eu e minha irmã levamos meus adultos pais ao aeroporto

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Giovanna Indelicato

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roteirista e diretora de todas as fanfics que já passaram pela minha cabeça