palavras de lua cheia

resgatar a mim mesma é como arrancar da garganta as palavras que ainda não foram digeridas. é abrir a torneira do rio que está cheio dentro de mim. é deixar a água turva cair. é ver nas poças rasas o reflexo da minha existência mas enxergá-la tão profunda e real. é me despedir de uma parte de mim mesma e embarcá-la num trem sem malas feitas nem destinos traçados. é me despir da pele que tento me camuflar enquanto o dia permanece claro. é ver crescer um novo céu, dessa vez mais límpido (agora que a neblina se desfez sou capaz de ver estrelas). é adormecer os temores antes da hora de dormir (agora que a escuridão não me causa mais espanto posso repousar). é reciclar: a mim mesma, o que está ao redor, o que está sucateado nos porões. é escutar o que a intuição proclama de cima de seu trono real. é abrir as grades da alma e tornar livres os animais que residem nas entranhas. é doar partes da minha essência a tudo aquilo que sopra o coração. é seguir transbordando pelos caminhos, deixando escorregar meus próprios pedaços por todo o lugar onde os olhos e o afeto alcançam, mesmo que silenciosamente.