O espião com a câmera na mão

Texto participante do Travel Writing Contest 2015 publicado no site WorldNomads.com

Em um dos meus dias na ensolarada San Diego, na Califórnia, tive a ideia de fazer um bate-volta para conhecer o México, que ficava a apenas uma hora dali.

Sim, sou do tipo de viajante sedento e inquieto que faz qualquer coisa (desde que dentro da lei, claro) para poder adicionar o selo de mais um país ao passaporte.

Então coloquei a minha mochila nas costas e parti sozinho mesmo, já que nenhum dos meus amigos estiva disponível para ir junto comigo naquele dia — o que não teve problema pois não me senti nem um pouco sozinho. Eu estava acompanhado da minha melhor companheira: minha câmera fotográfica — sim, uma câmera às vezes pode ser uma parceira de viagem melhor do que muita gente.

Eu e minha câmera saímos do trem, passamos pela alfândega e mais alguns passos a frente já estávamos dentro da icônica cidade de Tijuana — um lugar que segundo relatos que li poderia ser perigoso, mas naquele momento eu estava tão empolgado com a aventura que nem liguei pra isso.

Um fenômeno que sempre acontece comigo quando estou em viagem é que parece que um mosquito me morde e de repente me transforma em uma espécie de Forrest Gump. Começo a andar e tudo o que eu faço é andar e andar sem parar, sem cansar e geralmente ando tantos quilômetros que acabo estourando os meus sapatos em um dia.

Então chegando lá comecei a andar e o tempo todo observando e fotografando coisas de um país novo para mim cujas cenas típicas fascinavam os meus olhos. Quando percebi já tinha atravessado boa parte da cidade, até que avistei de longe uma bandeira gigante do país, (eu juro que nunca tinha visto uma bandeira tão grande) e quis andar até lá imaginando que poderia fazer uma foto muito legal.

Enfim andei longe e cheguei até a tal bandeira. Ela ficava em uma praça grande, em frente a uma construção fortificada que na hora eu não conseguia identificar o que era. Estava preocupado em encontrar o melhor ângulo para fotografar a bandeira e fiquei alguns minutos lá até ter a imagem perfeita, quando de repente levei um susto com dois homens me abordando. Eram dois guardas do exército local. Pensei comigo “Que diabos está acontecendo? O que foi que eu fiz?”

Eis que um deles falou: “Senhor, me acompanhe por favor.”

Então eu segui eles até contornar a quadra e no meio do trajeto eles começaram e me interrogar sobre tudo, o que eu estava fazendo ali, de onde estou vindo, por quê estava ali, etc. Comecei a suar frio e pensei “Ferrou, é agora que eu não volto para casa nunca mais”.

Após uns 10 minutos nisso chegamos a um portão que dava acesso a que percebi ser um batalhão do exército. Os dois guardas então me entregaram a um superior deles, que passou a me interrogar ainda mais. Ele então me disse que aquela era uma área proibida de fotografar, vistoriou a minha mochila e pediu a minha câmera para ver o conteúdo das fotos que eu havia tirado. Como viu que só tinha dezenas de fotos da bandeira mesmo, me liberou mas avisou que não era mais para eu ficar ali. Na hora eu tinha ficado bem assustado, mas depois que saí e a tensão passou, comecei a me achar muito cool por essa história toda. Sério mesmo que me confundiram com um espião!? Eu ri sozinho.

Saindo dali já escurecia e achei melhor voltar direto para a alfândega, cruzar a fronteira, pegar o trem e voltar para os EUA. Ali eu estava mais seguro.

Mas não me arrependo de nada. Ficou a lição de que grandes aventuras geram grandes histórias e essa eu certamente contarei para os meus netos no futuro.

Depois dessa, me apaixonei ainda mais por viagens, e desde então não consigo mais parar de me aventurar. Afinal, ainda existe muito muito mundo para desbravar e novas histórias como essa para contar.

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