Um doce trabalho de verão na Sibéria

Texto participante do Travel Essay Contest 2015 publicado no blog IMustBeOff.com

Sempre gostei de viajar, mas para mim as viagens são mais do que apenas viagens. Exatamente cinco anos atrás, eu estava embarcando para talvez a maior — e melhor — aventura da minha vida.

Na época eu era um estudante universitário brasileiro que estava entediado com o seu curso e tudo o que queria era viajar para longe. Foi então que eu conheci uma organização internacional de estudantes que possibilitava intercâmbios diferentes dos destinos mais tradicionais. Sua proposta era para países mais distantes e menos acessados.

Confesso que deu um frio na barriga na preparação, mas a minha vontade de fugir da rotina e desbravar novos horizontes era muito maior. Eis que me deram as opções daquele ano: Turquia, Ucrânia, Romênia ou Rússia. Bom, se e é pra ir longe, que seja o mais longe de todos — eu pensei. E escolhi a Rússia. Seria um interessante contraste para quem um ano antes esteve em um intercâmbio nos Estados Unidos. E então lá fui eu para o outro lado do mundo.

Uma das coisas que eu mais gosto em viagem é de ficar horas contemplando o horizonte pela pela janelinha do avião e refletindo sobre a vida. Só que o trajeto do Brasil até a Rússia é tão longo — mesmo com uma escala no meio — que você acaba não aguentando mais de tanto refletir e só quer que chegue logo.

Algumas horas em Moscou para trocar de aeroporto e finalmente embarquei para o trecho final do meu destino: a Sibéria. Mais quatro horas de vôo.

Cheguei na capital da Sibéria, Novosibirsk, em pleno verão siberiano — ainda bem, porque o inverno de lá acho que eu, como brasileiro, não sobreviveria!

No aeroporto mesmo estava uma equipe da organização de estudantes para me recepcionar. E lá estava eu, no meio da Ásia, ainda meio tonto com o fuso horário e ouvindo todas as pessoas ao meu redor falando uma língua que eu não entendia nem uma palavra.

Passei uns dois ou três dias me recuperando do cansaço da viagem e aproveitando para conhecer a cidade mostrada pelos novos amigos antes de ir para o meu trabalho. Eu já tinha uma noção de com o que trabalharia por algumas informações que tinham me passado antes, mas só fui entender realmente o que seria o trabalho quando cheguei lá: eu seria voluntário em uma Colônia de Férias de Criatividade para crianças e pré-adolescentes.

O Summer Camp ficava em uma área mais rural afastada da cidade, então a partir daí foram quase dois meses de imersão cultural total no meio da floresta sem TV e sem internet. Mas a conexão com a natureza e o contato diário com crianças é tão gratificante que você acaba nem sentindo muita falta do mundo tecnológico.

E foi assim que eu tive a melhor experiência de trabalho da minha vida. Dei aulas em inglês de português e sobre a cultura do Brasil, aprendi um pouco de russo com as crianças e participei de atividades culturais/criativas em Teatro, Dança, Música, Fotografia, Cinema, etc. Aquele tipo de troca que pode não enriquecer o seu bolso, mas enriquece a sua alma.

Do início até o fim da minha estadia, fui calorosamente recebido por todos os russos. Todos sempre fascinados quando eu falava que era do Brasil me perguntavam por que eu havia ido tão longe. Às vezes eu não sabia nem explicar, só conseguia sentir. Eu sentia tudo diferente, mas ao mesmo tempo muito parecido. Afinal, apesar dos idiomas e culturas diferentes, somos todos seres humanos. E com um misto de inglês com idioma local, mímica e bondade no coração, todos podemos nos entender.

Como falei no início, algumas viagens para mim são mais do que apenas viagens. Esta, além de uma grande aventura, foi para mim a mais pura lição de vida.

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