Mulheres, desculpe-nos por não saber enxergar.

O ENEM foi o bafafá da semana, com certeza. Não simplesmente porque tava difícil (experiência própria), mas também por suas questões e o fato de ele ter “esquerdado”, tanto em suas questões quanto no tema da redação. Porém, não, não vou falar sobre o ENEM.


O tema da redação foi algo que me alegrou muito: ‘A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira’. Além de ser um tema que considero ter uma certa facilidade de dissertar, é algo totalmente relevante a ser discutido nos tempos atuais. Mas parece que para algumas pessoas, não é bem assim.
Infelizmente, presenciei em meu círculo de amizades, declarações de que era “tema de esquerda”, “esquerdei na redação”, “ficou totalmente comunista o que eu escrevi”, “queria ter pensamento feminista pra dissertar”. MAS ONDE CARALHOS QUE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER É UM TEMA DE ESQUERDA?! E pra falar sobre violência contra mulher, você tem que ser UNICAMENTE feminista?! Pra você falar sobre violência contra a mulher, você poderia pensar de um jeito mais fácil: “Nossa, mulheres são humanos também, porque tem tanta gente que bate nela por serem pertencentes a esse sexo?”. É muito difícil pensar desse jeito né? Infelizmente, quando se vive em uma sociedade onde o homem é superior, é bem difícil para as pessoas pensarem dessa forma. É muito mais fácil, pensar desse jeito:

Junte o egocentrismo humano com uma sociedade patriarcal, BOOM, você tem isso. O problema de toda a situação é exatamente o que li aqui. Porque o que o homem faz é, de alguma forma, superior ao que as mulheres fazem? Porque é mais suado? Tenho certeza que quando falam que “homens ocupam 95% dos cargos de lixeiros, pedreiros e em minas de carvão”, todos aplaudem de pé. Mas, se fossem mulheres, ninguém ia parabenizá-las, iam começar a zoar elas falando que são “mais macho que muito homem por aí”. Para exemplificar melhor é só pensar na situação de dona de casa. Para a sociedade, é super normal que a mulher seja uma dona de casa, ninguém a congratula por isso. Mas quando o homem vira dono de casa, só falta declarar feriado nacional para exacerbar e endeusar quem faz isso. Todo mundo gratifica a ação, dizendo que ele “teve que abandonar muitas coisas para cuidar dos filhos, cuidar da casa, ai, que lindo!”. Ué, mas a mulher já não fazia isso? Teve de abandonar muitas coisas pra ficar em casa, cuidar dos filhos, fazer comida pro ‘maridão’, lavar roupa, lavar a moradia. Não que eu esteja desmerecendo, mas precisa que um homem vire dono de casa pra perceber o quão nobre é exercer essa função? Tudo isso cai no colo da cultura machista e patriarcal em que vivemos. Se existem leis para mulheres por elas serem mulheres, ou se cobram mais trabalho por parte dos homens, é porque ensinaram que a mulher é mais frágil, que ela tem que ficar em casa e que o homem é mais forte, ele que tem que sustentar a família, ele tem que trabalhar mais, e assim vai.
Então, pensem melhor antes de falar que é mimimi ou que as mulheres são culpadas em tudo isso. Você primeiro fala que é o macho alfa, trabalhador, sustentador de família, superior e mais inteligente do que muita mulher por aí, pra depois sair reclamando que te cobram demais? Então escuta aqui: A CULPA É SUA que continua disseminando essa cultura.


E a motivação de eu escrever isso? Hoje, 27 de outubro, Jout Jout publicou um vídeo falando sobre o caso da Valentina, concorrente do Masterchef e que tem recebido mensagens de assédio por pessoas BEM mais velhas que ela. E assim, a Jout Jout aproveitou pra falar sobre abuso e tudo mais.

A parte que mais me chamou a atenção foi essa:

“E além de não se rebelar contra isso, você tem também que ficar lisonjeada, e jogar as mãos pro céu e agradecer pela benção divina que é ser uma mulher desejada. Por que? Porque é a melhor benção que pode ter no mundo, não é mesmo? É muito melhor do que ser uma mulher sozinha, ‘ficar pra titia’, ser uma solteirona cheia de gatos, isso não é bom! O que é bom, e inclusive um privilégio, é um homem que você NÃO quer que te toque, TE TOCANDO, e falando no seu ouvido que ‘Você é gostosinha’, porque independente da situação, é sempre bom saber que somos gostosinha, não é mesmo? Ficamos muito lisonjeadas com a sua gentileza, obrigada por me achar gostosa!” — Jout Jout

Depois de ouvir isso, eu fiquei pensando: “Porque é difícil para os homens tentar enxergar o outro lado da situação?” Sabe, é difícil tentar entender como é que as mulheres se sentem, quando todos nós colocamos elas em uma posição inferior? E não me venha me dizer que você não faz isso! A cada “mulher não sabe dirigir”, “seu lugar é na pia”, “mulher só é sup no LoL”, você está de alguma forma mostrando que ela é inferior. E, meu querido, mulher não tem que obedecer suas vontades não! Se ela quer sair de shorts, vestido, etc., não é você que vai impedir ela. Se ela quer falar palavrão, jogar videogame, futebol, não é você que vai falar que “isso não é coisa de menina”. O que falta para tudo isso acabar é tentar entender o outro.

É fácil se colocar no lugar delas, não é um martírio. Imagina se TODO SANTO DIA, tivesse alguém que falasse pra você que “você não deveria usar essa roupa, mostra demais suas pernas/seus peitos/suas costas, você fica exposta demais”. Imagina se A CADA ESQUINA QUE VOCÊ VIRASSE, você tivesse que se deliciar com os vocábulos “gostosa”, “delícia”, “ô lá em casa”, “papai fez um bom trabalho”. Imagina se você não pudesse fazer qualquer coisa, “porque você é mulher, e mocinhas não fazem isso/não se portam dessa forma”. Assim como você sempre falou “Não sou obrigado a nada, faço o que eu quiser” há anos, não, SÉCULOS, as mulheres pedem e clamam por isso. Mas ninguém escuta, pelo jeito. Porque se escutassem ou enxergassem de outra forma, tenho certeza que haveria menos abusos, estupros, violência. É só pensar da seguinte forma: se é tema de redação do ENEM, não é porque ele é esquerdista, mas sim porque é algo relevante e que precisa ser discutido. Mas as pessoas só entendem quando sentem na pele o que é passar por algumas situações. Como bem disse meu amigo:

“Vou dar um tapa na mãe de cada um que acha que é mimimi. Vamo vê se não vai falar nada.”

A gente tem que parar com muitas coisas para começar a mudar. Antes de você reclamar de qualquer coisa, você deve PARAR DE OLHAR PARA O SEU PRÓPRIO UMBIGO! Esse é um apelo que eu faço para todos: tente entender a situação do próximo. Se esse assunto está em destaque, se ele é relevante, é porque alguma coisa de errada tem! Você não precisa ser feminista pra entender que é errado bater na mulher porque ela te disse não, porque ela tá usando o que você não quer ou porque ela é mulher. Não é necessário ser feminista para entender que somos de sexos diferentes, mas isso não faz com que um seja superior, mais forte, mais inteligente, etc.. Somos humanos, todos somos diferentes, com suas qualidades, defeitos, aptidões e dificuldades. A verdade é que ninguém precisa se curvar à cultura paternalista, nem mulheres e nem homens. Não é assunto de esquerda ou direita, é um assunto de todos nós. É um assunto que o mundo deve discutir. E se nem com este alerta consegui te convencer, então não sei mais o que fazer. Quem sabe rezar e procurar por um pingo de esperança no mundo de que, um dia, consigamos nos ver como iguais.


E mulheres, nos perdoem por alguns de nós não conseguirem enxergar o lado de vocês. Assim como eu já fui um cego, é uma questão de tempo até aprendermos a enxergar. A única preocupação é quanto tempo ainda vai demorar até aprendermos isso? Há tempos não sabemos como fazer isso, quem sabe desde o início de tudo. O problema é que ninguém percebeu que tudo vai mudar quando enxergarmos melhor: não só a violência e abuso contra a mulher vai cair, mas também o racismo, pobreza, violência sem sentido. Quando conseguirmos nos ver como iguais, como humanos, tudo vai se resolver. Juro que um dia nós iremos aprender com os nossos erros.