É importante reparar nas reflexões inocentes do dia a dia

- não é?

Descia a lomba em um ritmo despreocupado, quase que como apenas deixando que a própria gravidade desse os passos por ela. O vento soprou em seus cabelos, acarinhando a nuca gentilmente — nem muito morno, nem muito fresco — e desalinhando os fios que antes repousavam na ordem minusciosa em que foram ajeitados. Tudo bem. Seguiu com seu passo manso, relaxado, descendo a lomba ao som de qualquer música folk que tocava em seus fones de ouvido. Seguiu com seu passo despretensioso, investindo mais tempo olhando pro sol se pondo do que pras lajotas desalocadas da calçada.

Como você já deve ter presumido, ela tropeçou, sim.

Aquele calorão, que sobe pras bochechas, veio junto com o coração acelerado e um opa-opa-pera-olha-aí passando pela cabeça, logo substituídos pelo respiro aliviado e riso frouxo de quem tem noção do quão ridículo teria sido observar aquilo que recém acontecera, de longe. A falta de equilíbrio junta dos olhos arregalados, interrompendo o passo leve de quem se preocupava só com o sol se pondo, de fato tinha sua graça única. Precisava rir de si mesma, vez e outra; pensou que outros poderiam também.

Como você também já deve ser presumido, ela equilibrou-se novamente, e andou outra vez.

O vento voltou a soprar os seus cabelos — que, a essa altura, já tinham estabelecido regime de anarquia depois do sacolejar brusco da cabeça que buscava equilibrar-se o suficiente para não ir de encontro ao chão — e o sol seguiu se pondo sem pressa, estimulando a volta do passo manso e despreocupado que antes praticava. Tudo bem. Estava em pé — tudo bem — estava em movimento — tudo bem.

Importante foi não ter deixado a bagunça do cabelo ou a intempestividade do tropeço atrapalhar o caminho.