Eu não arriscaria

Mentira.

Desafiava como quem tivesse um peito cheio de coragem, mas verdade é que eu podia ouvir a hesitação discutindo com o desejo, lá do outro lado. Aquela sensação de se-você-pular-eu-pulo, quando se depara com uma piscina, à noite, e percebe que o receio de cair sozinho nela oscila com o tamanho do prazer de mergulhar de uma vez. Era um medo de falar demais, cada vez que a próxima fala começava a ser desenhada; melhor sugerir, falar nas entrelinhas, ou esperar que eu ponha as palavras na sua boca.

Ou não. A noite não julga, afinal. E nem eu.

Me dê mais com que eu possa trabalhar, inclusive. Fale mais. A gente faz dessas, cê bem sabe. Deixa escapar um certo monte de frases honestas, se diverte; deixa fluir, que isso ainda não custa, e, te disse: a noite não julga ninguém. Se despe — dos pudores — e me conta mais dessa história.

Desafia?

Meu bem, você sabe com quem está falando.