Maranha

(de tantos nós)

Gabi Antunes
Jul 20, 2017 · 3 min read
- How am I doing? — Still here. — Good. I like being here. (frame do filme “Antes do Pôr do Sol”, direção Richard Linklater)

Quem nunca parou pra pensar em todo esse tanto de gente que passa por nós, em dias extremamente ordinários e absolutamente nada especiais, que consegue tornar um sorriso cúmplice um algo que fica no coração da gente por muito mais tempo do que se espera, que se manifeste, ou me julgue. Eu tenho sido meio a louca do lado bom, ultimamente — perdoa; mas esse lance de tentar ser mais o copo meio cheio do que o meio vazio, às vezes, é bom… acaba atirando algumas obviedades na cara da gente, que — sejamos honestos — faz um bem danado.

Uma delas é que a gente é um grande emaranhado de encontros e partidas, em vários meios de caminhos, sabe.

E aí hoje eu acordei pensando que tantas, entre essa tanta gente, já me trouxeram um punhado de coisas que, hoje, são tão minhas, e outras várias levaram com elas outras partezinhas que me eram tão queridas. Eu lembro bem de algumas delas, essas partes que me levaram, mas a verdade é que, se me devolvessem, nunca que elas iriam se encaixar de volta. A gente abre o coração, e acaba que ele se transforma em três milhões de outras coisas, e muito do que antes vivia lá dentro fica sem espaço pra habitá-lo de novo.

Isso é uma coisa boa, eu acho.

Mas, pensa, tem um tanto mesmo de gente, não tem, não? E a outra obviedade que se joga na nossa frente é o quanto nós estamos vulneráveis e completamente à mercê do amor do outro. Do outro consigo, e então conosco. Mas pensa também que se a gente abraçar a nossa vulnerabilidade com carinho, e com um pouquinho de esperança, tem outro tanto de coisas extremamente ordinárias e talvez sem nada de muito grandioso mesmo pra nos acontecer, mas que podem fazer tão bem.

A gente aprende a deixar que outros repartam conosco alguns momentos tão pessoais, que nos partam quando partem, que retornem — às vezes em carne e osso, às vezes só em lembrança e saudade — , e a gente aprende que ir e vir é um direito, e que a gente é ninguém pra querer segurar todo mundo na nossa volta. A gente aprende que pode também dar umas voltas, que a gente pode até mesmo voltar como outros, e revoltar-se e partir-se em tantos mais.

Sinto que a gente se emenda nos abraços, se renova nos sorrisos, e renasce sempre que um par de olhos se enche de brilho quando enxerga a gente— e isso também serve para o nosso próprio par de olhos, no espelho.

A gente é um grande emaranhado de encontros, um embate incansável de corações que não desistem das suas próprias batidas, em um imenso cruzamento de caminhos indefinidos, ordinários e incríveis, sempre expostos às intempéries das partidas.

E eu acho que isso é uma lindeza, mesmo.

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