
Pegou minha mão e virou para cima a palma. Analisou minhas linhas, e me sorriu o sorriso de quem abre um livro em uma passagem gostosa de se ler, sem querer. Tirou os olhos da mão e fixou-os nos meus. Gentil, me disse, de jeito leve e como quem aprova, que eu era um espírito livre. Nunca me vira na vida, mas parecia ter muita certeza. Naquela hora, isso me deu algum conforto.
Disse que eu tentaria qualquer coisa, pelo menos uma vez, e gostei da esperança e coragem que julgou que eu tivesse. Eu quase que julguei também. Disse que isso me levaria adiante. E disse, também, com toda convicção, que não tivesse medo. Tentei seguir o conselho, e hoje tento abraçar meus medos com carinho, até que eles morram em meus braços e partam tranquilos — eu nunca fui dessas que mata sentimentos (me entenda, vai), mas diminuir o espaço ocupado por medos permite aumentar o quintal onde brincam as possibilidades, depois.
(Ainda sigo com alguns tantos em meu colo.)
Ainda com a minha mão de palma para cima entre as dela, me disse que meu futuro aconteceria bem longe dali, e que seria bonito. Ela não sabia de onde eu era, mas eu sabia pra onde eu voltava, então quis acreditar em todas as palavras, e extrair de suas falas qualquer significado que me guiasse em direção a algo bom. Tem vezes que a gente só precisa ouvir algumas coisas boas, mesmo, e voltar não precisaria significar parar no mesmo lugar.
Perceba, não faz mal alimentar uma esperança meio boba.
Nunca me vira antes, e não sabia de onde eu era, mas naquele momento me encheu de perspectivas doces e alguma tranquilidade que vinha dela. Eu me lembro ainda das rugas marcadas, logo abaixo dos seus olhos que tinham um jeito de sorrir sem a boca, e das marcas nas têmporas que pareciam já ter visto muito do mundo de muita gente, e da saia que usava, rodada, e da esperança que vinha dela.
De lá pra cá, já faz quase quatro anos. Alguma dessa tranquilidade já se foi, é certo, mas eu ainda queria encontrá-la nas ruas do West Village outra vez, apenas pra lhe dizer obrigada, e entregar-lhe, talvez agora, a outra palma.
