O pesar de uma escolha
A fuga é sempre pertinente em tempos que o agente que sofre considera crise. Mas se eu estou sempre me deslocando como vou construir minha fortaleza? Não se leva pedras fortes na mala de um nômade. Essas que serviriam como reforço dos muros da morada. E as comidas na sacola sem refrigerar, começam a se decompor e feder.
Há uma voz que coordena a rota de fuga, pela qual tal andarilho passa, com a mesma precisão de uma bússola sem um campo magnético regente. Profere coisas como: “Vai por ali porque a vegetação por lá é mais abundante”, “Não, mas tem aquele outro ali que tem as pedras mais resistentes para fazer a fortaleza do lar”, e etc…
Apesar de uma das opções ser escolhida, uma mínima coisa que possa dar errado, invoca uma voz em tom de julgamento que diz que eu não sei fazer escolhas, e que eu deveria ter escolhido a outra opção. Daí, me vejo no segundo seguinte prestes a fazer as malas e deixar a antiga preferência para trás. Porém, mesmo ao abandonar o passado e escolher uma nova opção, não é o suficiente, pois o terror de olhar o céu nublado ameaçando derrubar o novo lugar que eu comecei a fazer morada, continua a causar desespero e aflição. E é nesse momento que eu lembro a importância da permanência para reforçar as paredes de casa. Assim, elas resistirão aos inevitáveis ventos fortes, chuvas torrenciais. Também é sobre reconhecer a importância de me conformar que mesmo os morangos no Sul sendo grandes e mais vermelhos, aqui no Norte (que é onde vivo) tem outras frutas tão boas quanto, eu só preciso aprender a aprecia-las.
Desse modo, eu adapto a minha visão e sou grata a possibilidade que me permitiu ser mais forte e sobreviver. Para assim, entao, compreender que eu não preciso ter os maiores e mais vermelhos morangos do Sul, se posso comer outras frutas que estão próximas e, que de modo similar, saciarão minha fome. Enfim, não existe escolha certa ou errada porque no fim a única coisa que nos é possível, em toda nossa coragem existencial, é agarrar o alcançável que está na escolha do presente a qual nós aperfeiçoamos gradativamente.
