Música Alheia

Sento ao lado de uma menina, seus vinte e tantos, com cara de menina, bolsa de marca cara, sapatilhas combinando e calça cor de rosa.

Magra, franzina, cabelo escorrido na cara, ela senta ao meu lado, mas estou no assento que não tem par, antes da catraca, sim ela senta na lombada, que raiva.

Ela não se incomoda comigo, a princípio só me incomoda mesmo, pois ela escuta música tão alta que todos ao lado podem escutar.

E não apenas escuta, fecha os olhos e mecha os lábios acompanhando a letra.

E esse estado de espírito dela, faz com que a cada semáforo ela me incomode menos, quem foi que nunca precisou estourar o volume nos fones de ouvido em um dia ensolarado?

Não sei se ela precisava disso por felicidade ou tristeza, mas acho que pra espantar os ecos de dentro, o silêncio serve pra atazanar nossos dias com coisas menos importantes do que nós mesmos.

A menina egoísta, estava ali estourando o volume em seus fones, pensando em si mesma nas primeiras horas do dia.

Ego a essas horas da manhã, pensar na sua alegria antes das dez horas, não é pra qualquer um.

Ela precisava disso no dia de hoje, e não seria eu a atrapalhar, e nesse dia de sol, a música é contemplativa, não ruído, mesmo que não seja do meu próprio ego.

Arte é assim, feita pra mechar com a gente por dentro, mesmo que incomoda, o ruído dela bloqueou por alguns minutos, não o eco do pensamento dela, mas o meu também.

Sentir algo é bom, mesmo que seja incomodo.

Seu ego não importa mais do que o de ninguém, lide com isso.

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