Gabriel Ferracini
Aug 25, 2017 · 9 min read

Kazuyoshi Miura — O japonês que deixou seu legado no futebol
De ignorado na base do Santos a Samurai Japonês, Kazu cultiva uma lista repleta de recordes em sua carreira, além de construir seu legado no esporte exercendo o que mais gosta de fazer: desfrutar do futebol.

Nascido em 26 de fevereiro de 1967, Kazu, como é popularmente conhecido, fragmentou todas as barreiras do futebol ao estender sua carreira até o seu quinquagésimo aniversário, ignorando os limites físicos e mentais que a idade acarretara à altura.

Desde pequeno com o sonho de se tornar jogador de futebol, começou cedo nos pequenos clubes que existiam por perto. Com o apoio do pai e empresário Nabuo Naya, resolveu mudar sua vida quando migrou para o Brasil, aos 15 anos, e caiu de paraquedas nas categorias de base do Santos, após uma passagem rápida e desapercebida pelo Juventus da Mooca.

Diferente de hoje, dos altos investimentos que os clubes brasileiros injetam na base, Kazu passou sufoco, mas nunca desistiu. Ainda moleque, foi deixado de lado pela base do Santos resultando um empréstimo ao Palmeiras, quando teve a oportunidade de ir com o Verdão a uma turnê de amistosos no Japão, como uma espécie de programa de intercâmbio acompanhando jogadores brasileiros. Após regressar, teve tempo de vestir a camisa do Matsubara, do Paraná, ainda no ano de 1986.

Em 1987, próximo de completar 20 anos, emplacou sua primeira manchete nos jornais depois de ser conhecido como o primeiro japonês a defender um time do nordeste. Neste caso, o CRB de Alagoas, dando sua colaboração para o título estadual que posteriormente o Galo Alagoano conquistaria.

De Jaú veio a projeção
No ano de 1988 foi convidado para disputar o Campeonato Paulista pelo XV de Jaú. O time, bem montado e comandado pelo saudoso José Poy, vinha apresentando grande futebol e concedendo belas dores de cabeça aos grandes da capital. Ali, proporcionaria mais um marco na história do futebol brasileiro ao projetar Kazu entre os nomes da brilhante campanha daquele ano.

Numa partida contra o Corinthians, em Jaú, o jogador nipônico cometeu seu primeiro gol em terras brasileiras, se tornando o primeiro jogador oriental a realizar tal feito, com destaque nas manchetes dos jornais do dia seguinte para a atuação desastrosa do goleiro Ronaldo.

Kazu quando jogava pelo clube do interior.

Ao fim do campeonato, após comandar o ataque do time jauense ao lado de Nilson (vendido ao Internacional de Porto Alegre e artilheiro do Brasileirão daquele ano com 15 gols) e Sonny Anderson (futuramente vendido ao Vasco da Gama e saturado de passagens pela Europa, incluindo Barcelona e Lyon), o trio daquele esquadrão se desfez e Kazu seguiu para o Coritiba.

Por contrato, Kazu rendeu ao time xvzeano excursões ao Japão em busca de aprimoramento para os jogadores da base. O acordo viabilizou ao clube vários patrocínios, como o da marca “Zíperes YKK”, a maior do Brasil no seu ramo à época, e do grupo industrial “Yamaha”. Em troca, jogadores japoneses jogariam no juniores do XV.

No Coxa seguia o baile à parte
Contratado após demonstrar belo futebol no Campeonato Paulista, Kazu chegou ao Coritiba e logo se tornara ícone no time paranaense. O atacante, pelos dribles rápidos, futebol ímpar e pelo simples fato de ser japonês, foi acolhido pelo lendário Valdir Espinosa conquistando a titularidade no Coxa. Recebeu a camisa 11 — que mantém carregando nas costas o número até hoje.

Jogou o restante do Campeonato Brasileiro de 88, concorrendo até mesmo à Bola de Prata da revista Placar, e seguiu na equipe com o comando de Edu Coimbra em 89.

Pelo Paranaense, fez parte da campanha que culminou o título incontestável do Coritiba no campeonato. Ao lado de Tostão, Chicão e Mário Sérgio, ajudou o alviverde emplacar 19 vitórias, 8 empates e apenas 3 derrotas na competição, assegurando o prazer de levantar a taça do estadual pela vigésima nona vez.

Retorno ao Santos e fim do ciclo no Brasil
Realizando o que almejava desde quando chegou ao Brasil, Kazu retornou ao Santos se firmando entre os titulares da equipe da baixada. Jogou o Campeonato Paulista e recebeu, carinhosamente, o apelido de “Exterminador Verde” ao apresentar futebol desconcertante em jogos contra o rival Palmeiras.

Ainda pela primeira fase do campeonato, o japonês abriu passagem para o Peixe calar o Parque Antártica abarrotado pelos mais de 24.700 pagantes. Comandado por Pepe, Kazu exibiu o que sabia fazer de melhor e, mais uma vez, virava manchete nos noticiários do dia seguinte.

O que poucos ali sabiam é que estavam próximos de presenciar o fim de um ciclo que viraria história para o futebol. A diretoria do time litorâneo já dava como certo o fim do contrato do atacante para o dia 15 de julho. No dia seguinte, embarcaria de volta à terra do sol nascente para desfrutar as glórias de sua vida, sendo recebido em sua pátria natal com a alcunha de maior jogador do país.

O bom filho a casa torna
Ainda em 1990, Kazu retornava ao Japão a fim de disseminar o profissionalismo e alavancar o futebol japonês com ajuda de toda experiência e maturidade adquirida enquanto esteve exercendo o bom futebol no Brasil. Coroado como rei, voltou como estrela e reforçou o time já multicampeão Yumiuri FC, que posteriormente se tornaria o Verdy Kawazaki e hoje leva o nome de Tokio Verdy — antigo time do jogador brasileiro Hulk no “japonesão”.

Quem via o Japão como sede da Copa do Mundo em 2002 talvez não imaginava, mas até 1993 o esporte no país era considerado amador. Kazu, ao lado de personagens brasileiros como Ruy Ramos (companheiro de equipe à época, defendendo a seleção japonesa entre 90–95), Wagner Lopes (viria disputar pelo Japão a Copa de 98) e Alessandro Santos (também disputou as Copas de 2002 e 2006 pelo time japonês) foi pilar para que esse processo se realizasse — sem contar a história produzida e adiante a canonização de Zico pelos japoneses.

Defendeu as cores do Verdy Kawazaki por oito anos. Neste período, também teve a estrela brilhando pela seleção japonesa. Estreou em 1990 e, em 92, já seria campeão da Copa da Ásia — título inédito para o país. Quase levou a seleção nipônica à Copa de 94 quando marcou 14 tentos pelas Eliminatórias, consagrando-se artilheiro do torneio. O que impediu tal feito foi o gol de empate do Iraque, aos 45 minutos da segunda etapa, cometido pelo algoz Jaffar Salman decretando a eliminação da seleção. Mais tarde o episódio ficaria conhecido como “A agonia de Doha”.

King Kazu, como já era conhecido, resolveu se aventurar e foi desbravar o velho continente. Ao desembarcar no Genoa, da Itália, repetiu a marca que havia registrado no Brasil e foi considerado o primeiro japonês a entrar em campo pela Serie A. Embora sua passagem no futebol europeu não tenha sido muito feliz — registrando apenas um gol em 21 jogos -, construiu história ao ser embaixador do futebol nipônico em todo canto do planeta. Posteriormente, ainda teve tempo de jogar no futebol croata defendendo o Croata Zagreb, atual Dinamo Zagreb, por 12 partidas.

Seleção Japonesa e a frustração de 98
Depois de arriscar a perfilar seu futebol na Europa, Kazu retornou ao futebol japonês e continuaria dando show na seleção japonesa. Nas Eliminatórios que antecedia a Copa do Mundo de 98, Kazu foi letal, novamente, ao anotar 14 gols no torneio, sendo quatro deles na fase final, contra o Uzbequistão. Classificado à repescagem, protagonizou o “Júbilo de Johor Bahru”, batendo o Irã, por 3 a 2, com um gol de ouro aos 13 minutos do segundo tempo da prorrogação, carimbando pela primeira vez a passagem da seleção asiática numa Copa do Mundo.

Todavia, Kazu não chegou a disputar o Mundial. Após ser pré-selecionado ao elenco dos Samurais Azuis, o jogador foi cortado em maio, às vésperas do torneio, uma decisão tomada pelo técnico Takeshi Okada que é contestada até os dias atuais. Após a fraca participação na França, sendo eliminado na primeira fase com três derrotas, Okada foi demitido.

Depois da frustração, Kazu teria vida curta nos Samurais. Disputou mais dois jogos defendendo a seleção, em 2000, em tom de despedida, sem cogitar disputar o Mundial de 2002. Aos 31 anos, encerrou sua trajetória na seleção nacional. Disputou 89 jogos, assinalou 55 gols, sendo 28 deles em Eliminatórias, entrando no ranking como terceiro maior artilheiro da história da competição, com média de 1,08 crime por jogo. O que Kazu não sabia é que o destino te presentearia com a oportunidade de disputar outro Mundial, mas isso é história para ser contada mais à frente.

Foco nos clubes
Após estabelecer seu reinado na terra do sol nascente, o atacante concentrou em apenas defender clubes na sua carreira. Vestiu a camisa do Kyoto Purple Sanga e Vissel Kobe até 2005, quando foi contratado pelo Yokohama FC, time que apresenta seu futebol até hoje. No final daquele ano, foi emprestado ao Sydney FC, da Austrália, para disputar o Mundial de Clubes. Formou dupla de ataque com o já consagrado Dwight Yorke, marcando dois gols na competição.

Retornando ao Yokohama, contribuiu para o clube conquistar o acesso à primeira divisão da J-League em 2006, permanecendo na elite do futebol japonês por uma temporada. Apesar de desfilar nos gramados pela modesta segundona do japonês, Kazu acumula mais de dez anos de idolatria no clube, renovando o status de rei a cada ano que passa.

Mundial de futsal e quebra de recordes
Ao passar dos anos, a longevidade de Kazu foi aumentando à medida que seus cabelos brancos iam aparecendo. Em 2012, foi emprestado ao singelo Espolada Hokkaido, time da liga futsal japonesa, para ganhar experiência no esporte e futuramente defender a pátria dentro das quadras.

Kazu ao lado do craque brasileiro Falcão.

Aos 45 anos, o imparável atacante realizava o sonho de defender as cores do Japão e jogar pela seleção num Mundial. Após aposentar o uniforme dos Samurais por 12 anos, Kazu estreou dentro das quadras em um amistoso contra o Brasil, no empate em 3 a 3. Três dias depois, marcava seu primeiro e único gol pela equipe. Na última partida que prepararia o time para o Mundial, Kazu marcou um, dos três tentos, que determinou a vitória em cima da Ucrânia.

Já no Mundial, realizado na Tailândia, Kazu continuaria deixando sua marca ao se tornar o jogador mais velho a atuar na competição da modalidade.

Vida longa ao rei
Como um bom vinho, Kazu fica mais valioso à proporção que o tempo passa. Em 2016, contra o Cerezo Ozaka, a figura lendária se tornou o jogador mais velho a marcar um gol numa partida oficial, quebrando o recorde anterior que também era seu.

Neste ano, foi considerado o jogador mais velho da história a jogar profissionalmente futebol. Vangloriou-se da sua imponência ao entrar em campo — trazendo consigo os cabelos grisalhos e a emblemática camisa 11 -, com 50 anos e 7 dias, dois a mais que o antigo dono do recorde Stanley Matthews, que deteve por 52 anos.

(Matthews) é uma lenda para nós. Não sinto que o ultrapassei. Fui mais longevo, mas nunca chegarei aos pés da sua carreira e de tudo que ele conquistou. Não se trata de números, mas da maneira como você joga”, comentou em uma entrevista aos jornalistas locais.

Em meio a poucos exemplos de jogadores que ultrapassaram a idade “normal” de se aposentar para construir uma história em seu clube de coração, somente Kazu foi capaz de ser embaixador do futebol de seu país e alastrar como um vírus para o restante do planeta. Matéria-prima da profissionalização no Japão, eternizado com a camisa da seleção e lendário para o esporte, quando o assunto é futebol entre os japoneses fala-se em Kazu.

A história nunca tem fim, ela se renova a cada dia, por isso que, caminhando na contramão dos limites físicos e mentais, o japonês é digno de todos os aplausos possíveis, visto que sua persistência num esporte que exige bastante de ambos aspectos foi gigantesca, servindo até como lição de vida. Moldado pela sua forte personalidade, a vontade de vencer sempre foi maior que a de parar.

Entre as guerras contemporâneas causadas por Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, não deixemos de se curvar à maestria de Kazuyoshi Miura. Seja nos gramados ou nas quadras, vida longa ao rei japonês. De preferência com a bola nos pés.

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    Gabriel Ferracini

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    Jornalismo USC

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