Um novo lar em Cadaqués.

Amin estava aliviado, depois de muitos meses procurando um bom lugar para morar ele finalmente tinha conseguido achar o apartamento ideal, o lugar não era muito grande, mas tinha um tamanho bom o suficiente para ele e sua noiva, Eloá, viverem confortavelmente. O apartamento tinha dois quartos e uma sala relativamente espaçosa. Amin ainda não tinha contado para Eloá que eles iam se mudar para a cidade natal de sua amada, ele já tinha contado que precisariam se mudar por causa do trabalho dele, mas decidiu fazer suspense sobre qual era a cidade, ele estava planejando fazer uma pequena surpresa, afinal de contas Eloá sempre comentava que tinha saído de sua cidade muito nova e que sentia saudades da vida na cidade. Amin então preparou tudo com o maior cuidado possível durante semanas, desde a decoração até o abastecimento da geladeira. Esse era o grande dia, eles fizeram um acordo e Eloá ficou vendada durante todo o caminho [de carro], até que entraram na pequena Cadaqués. Assim que chegaram ele tirou a venda de Eloá que quase pulou de tanta alegria, eles então começaram a passear por todos os locais possíveis, parando de vez em quando para comprar uma água ou um sorvete. Eloá mostrou cada parque e eles andaram por quase toda a cidade e depois que o anoitecer finalmente chegou Amin decidiu revelar a maior surpresa de todas, o charmoso apartamento que eles iriam chamar de lar dali pra frente. Colocando a venda novamente Eloá se deixou ser guiada por seu noivo, eles subiram uns três lances de escadas e fizeram duas curvas para a direita num corredor até que pararam, houve um pequeno barulho da chave rodando na fechadura e da porta abrindo, Eloá sentiu Amin puxar sua mão levemente incentivando-a a dar mais alguns passos e depois disso a venda foi retirada.

Um barulho alto ecoou pelo apartamento quando Eloá caiu de joelhos no chão, seus olhos estavam arregalados e cheios de puro terror, e apesar de não pronunciar nenhum som sequer, sua boca permanecia aberta, o queixo tremia e os ombros caídos emolduravam-na como se fosse uma pintura surrealista de terror. Amin ficou aterrorizado com estranha reação de sua noiva, mas sem demora se ajoelhou ao lado de Eloá, abraçando-a na tentativa de fazer com que ela se acalmasse. Depois de alguns minutos Amin consegue convencer Eloá a se levantar e os dois deixam o apartamento; ainda abraçados eles se encaminham a uma pequena praça que ficava próxima ao prédio, chegando lá Eloá começa a chorar e entre soluços tenta explicar para Amin a razão de sua estranha reação.
 — Sabe, eu não lembrava muito da casa em que eu vivia aqui, apesar de lembrar muito bem da cidade, eu não tinha uma única lembrança da minha casa, e agora que eu parei pra pensar isso é muito estranho, mas hoje tudo voltou de uma vez, desculpa, mas eu não posso voltar lá dentro… Aquele era o apartamento que eu morava, e foi lá que aconteceu a coisa mais aterrorizante da minha vida, como eu era muito pequena eu devo ter “apagado” da minha memória as lembranças de lá por ser demais pra minha mente lidar. Eu devia ter uns 5 anos, e eu morava com minha mãe e meu pai lá, nós estávamos comemorando alguma data especial, acho que era o aniversário de alguém, todos estavam muito felizes, até que um tio meu chegou, ele estava completamente alterado, devia estar muito bêbado ou drogado, e então ele começou a brigar com meus pais, do nada ele partiu pra cima do meu pai e minha mãe já correu e mandou eu me esconder no banheiro do meu quarto, e depois voltou pra sala, onde os dois ainda estavam gritando. Aquela foi a noite mais assustadora da minha vida, depois de muito tempo chorando dentro da banheira, tentando não ouvir os barulhos assustadores que vinham de fora, eu dormi, só acordei na manhã seguinte e tudo já estava quieto, então eu saí correndo achando que meus pais tinham conseguido resolver a situação, mas quando eu cheguei na sala, quase na entrada da casa, eu vi meus pais mortos e uma enorme poça de sangue ao redor deles, depois disso eu só lembro da minha avó vindo me buscar, eu ainda estava chorando. Nós ficamos algumas semanas na casa dela, mas depois nos mudamos da cidade, acho que ela não conseguia mais viver aqui e também não queria que eu vivesse tão perto das memórias desse desastre.

Quando terminou de contar a história Eloá começou a chorar mais ainda, como se fosse novamente a criança de 5 anos que vivenciara o grande trauma de sua vida. Então Amin a puxou para mais perto e a abraçou mais forte e com a voz mais doce e calma que conseguiu disse:
 — Eu sinto muito, muito mesmo. Mas calma, a gente nunca mais vai entrar lá dentro, podemos encontrar outra casa por aqui para construir novas memórias felizes nessa cidade linda, se você ainda quiser, é claro.
 — Obrigada! Sabe de uma coisa… Eu acho que podemos tentar, essa cidade é mesmo incrível, merece lembranças melhores.- Respondeu Eloá.

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