Transtornada

Gabrielle B.
Jul 25, 2017 · 4 min read

“Tudo é padrão.”

Eu prometi a mim mesma que, esse ano, iria evitar cada vez mais utilizar generalizações. Só que quanto mais eu tento escrever sobre esse assunto, mais eu me dou conta de que talvez essa frase seja apenas o mais próximo da verdade que eu consigo chegar.

Vou me permitir dizer então, e se eu me arrepender disso daqui a duas semanas, bem… que se foda. Pois uma outra coisa que eu também prometi a mim mesma esse ano era que eu poderia mudar de ideia sobre qualquer coisa a qualquer tempo se assim eu o quisesse. Então já que me dei essa liberdade aqui vai, novamente: tudo é padrão.

Eu sempre fui uma pessoa articulada. Mainha, muito sábia, costumava me educar explicando o porquê de tudo e me enchendo de livros. Eu amo ler, sempre amei. E eu amo falar também. Uma das melhores coisas que eu fiz quando criança foi uma oficina de teatro infanto-juvenil aos 10 anos. Estar sem palavras é algo que raramente me acomete.

Mas aconteceu, esses dias. E acontece agora enquanto tento escrever esse texto pela milésima vez e percebo que passei quatro parágrafos andando pelas beiradas com medo de pular no buraco e me dar conta de que ele é mais profundo do que imaginei. Vou tentar ser mais incisiva, como posso dizer isso? Como posso começar a falar disso?

“Eu não tenho uma boa relação com a comida.

Mas claro, nada demais. É só que quando eu vivencio alguma emoção mais forte, seja ela positiva ou negativa, eu meio que paro de comer por um tempo. Mas nada constante, viu? Não é nada pra se preocupar não, menina, são só uns dias. Dois, três, no máximo! E não é como se eu não comesse nada, né, eu como uma coisinha ou outra: um pedaço de queijo, um suco, um biscoitinho… Enfim, o que eu conseguir né?

Mas eu vou ter que ser sincera agora. Nem sempre essa é a razão pela qual eu deixo de lado essa história de comer. Às vezes eu me sinto inadequada. E tem acontecido com menos frequência ultimamente, eu me lembro que durante a faculdade acontecia bem mais. Então acho que tá tudo sob controle… Eu me pesei essa semana, sabia? 48 quilos. Eu sou baixinha, então to dentro do esperado. Eu até tenho umas gordurinhas na barriga ainda que eu gostaria de perder, mas né… Parece que elas não vão embora nunca, já desisti.”

Transtorno alimentar? Isso nem passava pela minha cabeça. Eu simplesmente parava de comer uns dias e era isso, depois voltava ué. Como que isso podia ser transtorno alimentar? Não podia.

Na verdade, pode. E é.

Ou ao menos foi o que eu ouvi da médica semana passada. Nunca tinha pronunciado esse nome muitas vezes, muito menos em consultório médico. Anorexia. Me parecia tão extremo. Me vinha à mente imagens de pessoas esqueléticas que haviam até perdido funções de determinados órgãos por causa de tanto tempo se privando de comida. Eu nunca tinha me deixado chegar naquele ponto. Eu não tinha isso, era impossível.

Tudo é padrão.

E as doenças não escapam disso. O ser humano tem essa necessidade de afirmar a todo momento quem ele é e o que ele tem, até mesmo quando se trata de algo negativo. Duvida-se, sempre. E eu duvidei de mim por longos 26 anos. Eu não tinha “porte” de uma pessoa anoréxica, eu não “passava fome” como uma anoréxica, eu era até saudável, minhas taxas estavam até ok. Eu não frequentava esses grupos bizarros do Facebook que ensinam quais as melhores formas de se passar fome. Eu não ficava sem comer absolutamente nada.

Então eu não podia ter um transtorno sério desses, certo?

Da boca da minha médica eu ouvi que estava errada. Eu ouvi que eu estava sim, numa fase da doença e que eu tinha tudo pra melhorar, bastava tentar e querer. Eu fui refletindo durante todo o caminho de volta pra casa que doidera que é quando as pessoas tentam conscientizar as outras de algo e acabam gerando uma onda de desinformação. Com a explosão dos transtornos alimentares nos últimos, sei lá, 20 anos, a mídia se empenhou em divulgar de todo jeito o quanto eram graves os tais transtornos alimentares. Só que de uma forma injusta, impensada e até cruel, acabou se criando uma cultura de que você precisava estar no extremo da doença pra que aquilo fosse considerado um transtorno.

O processo é sumariamente ignorado. E cria-se um padrão dentro de um grupo de pessoas que adoeceu, dentre outras razões, porque tentou chegar em um padrão.

Bizarro.

Enfim, eu escrevi esse texto porque eu sinceramente não sei como ser ajudada e nem sei como falar disso. Sigo tentando buscar ajuda aos poucos e me cercar de coisas e pessoas boas. Todo dia eu descubro um novo jeito de lidar com tudo isso; todo dia eu penso sobre isso, apesar de raramente falar. Hoje eu decidi escrever. Um texto mal escrito, eu sei, mas com certeza o mais sincero que já saiu de mim. Hoje eu só queria falar sobre o assunto na esperança de tirar um peso do meu peito e de, talvez, ajudar uma outra pessoa que esteja nesse meio do caminho aí rumo a um destino não muito bacana que a gente já tá cansado de saber qual é.

Que a gente não espere chegar no 80 pra se dar conta que precisa de ajuda.

Com esperança,

Gabi.

Gabrielle B.

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