Você me disse que precisava comprar cortinas

Pra sua janela. Cortinas, sabe? O sol nasce bem aqui ó. É forte, bate no rosto, acorda a gente muito cedo. Incomoda às vezes.

Eu não questionei muito. Perguntei se você queria que eu fosse junto pra te ajudar a escolher. Esquecemos de medir o vão. Eu, com minhas breves noções de espaço calculei alguma coisa aproximada de cabeça. A gente já tava na loja mesmo…

Não tinham muitas cores, todas neutras, eu não gosto muito de tons neutros. Penso que são usados em excesso, especialmente nesses quartos de casais que moram juntos e não sabem conciliar os gostos de cada um. Inventam uma massa disforme, estranha, que nada diz. Parece o quarto de alguém que nunca existiu de tão vazio que é de personalidade… Mas seu quarto já tem tanta personalidade que eu nem disse nada.

Marrom.

Com blecaute (lógico). Você pagou e voltamos pra sua casa. Sempre pensei que instalar uma cortina fosse meio complicado, mas você desenrolou com maestria. Uns 10 minutos depois e pronto. Tinha uma cortina no seu quarto.

Uns seis meses depois e pronto. Estávamos namorando.

E você me disse em tom de confissão depois de uma das nossas trepadas matutinas típicas o real motivo da compra da cortina.

O sol batia no meu rosto de manhã. E nessa época eu era só mais uma. Uma que você chamava pra curtir a tarde no seu apartamento (sem compromisso). Mais uma que dormia na sua casa, na sua cama. Mais uma que era acordada pela luz dura da manhã, cheirando à ontem. Mais uma.

A verdade, ouvi, é que você não queria que o sol me acordasse. Mas o sol já tinha acordado tantas outras…

Mas aquela tinha sido a primeira vez que você tinha reparado.

E assim ficou atestado. Nosso amor começou desavisado: com raios de sol na cara e cortinas de tecido marrom.

Com blecaute.

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