Os invisíveis e indesejados sociais

Sexta-feira, 5 de maio de 2017. A reunião com o cliente na parte da manhã se alongou por muitas horas a mais. Não consegui almoçar e por fim acabei concluindo que iria resolver todas as pendências do meu dia antes de parar tudo e comer algo com calma na rua mesmo. Fui no centro da cidade, fui ao mercado e por fim, parei para fazer um lanche às 17h03, já que todos os restaurantes estavam fechados.

Desci do ônibus na Av. Venâncio Aires, em Porto Alegre. Na parada de ônibus dei de cara com um morador de rua, negro, pela faixa do 30 a 35 anos. Em meio a farrapos, tapado com uma toalha, o homem dividia espaço com um cachorro que parecia filhote ainda. Uma sacola plástica de mercado guardava o pouco de ração que o animal tinha.

Como sempre, reparei muito no homem. Desde que me mudei pra Capital, as pessoas em situação de rua me chamam a atenção. Confesso que nunca dou dinheiro mas sempre que possível, compro algum alimento. Um ex professor meu, da faculdade, sempre falava que “o dia em que pararmos de nos importar com essas situações, perdemos a humanidade”. Levei isso comigo desde o dia em que ouvi.

Mas eu atravessei a rua e entrei no Subway. Pedi um sanduíche de 15 centímetros, de frango teriyaki com pão de três queijos. Ainda pedi uma lata de Coca-cola e ganhei, no combo, um cookie de chocolate preto. Me sentei em uma das mesas do fundo e degluti o sanduíche em poucos minutos. Pensei comigo mesma: “Estava morrendo de fome!”. E ao pensar nisso, minha visão deu de cara com o morador de rua e seu cachorro.

Todas aquelas ideias de que, de certa forma, somos responsáveis por essas crianças e adultos que vivem nas ruas voltaram à minha cabeça. Lembrei de uma pesquisa recente, realizada pelo Censo e Estudo do “Mundo” da População Adulta em Porto Alegre, de dezembro de 2016, que constatou que a população de rua aumentou em 75% nos últimos 8 anos. Problemas psicológicos e o uso de drogas foram apontadas como as causas que levaram essas pessoas a terem as ruas como o seu endereço. Sendo que em janeiro deste ano, outra pesquisa publicada pelo Ipea, estima que o Brasil tenha um pouco mais de 101 mil pessoas vivendo nessas condições. Essas pesquisas são muito importantes porque auxiliam na formulação e implementação de políticas públicas para pessoas nessas condições. Além disso, eu acho que cada um pode ajudar.

Muita gente pensa que essas pessoas são apenas bêbados, drogados, vagabundos. A máxima de que “mora na rua porque quer” não é válida, afinal de contas: ninguém quer morar na rua. Esses invisíveis e indesejados sociais apanham e tem seus poucos pertences roubados diariamente. Há dois dias um morador de rua foi agredido pela Guarda Civil Metropolitana, em São Paulo. Samir Ahamad, de 40 anos, teve o punho quebrado. Nada justifica uma ação dessas. A Guarda agiu com abuso de autoridade e lesão corporal. No último dia do ano de 2016, outro morador foi agredido com golpes de cassetete e pontapés, em frente ao mercado Zaffari, em Porto Alegre. O homem teve uma fratura na costela e lesões no ombro e nas pernas.

E pensando nisso, sem muito dinheiro na carteira ainda para aguardar o dia do próximo pagamento, eu me peguei pensando o quanto era egoísta da minha parte me deliciar com um sanduíche e o cara lá, sem nada pra comer. Com apenas R$ 10,50 eu compraria o sanduíche do dia e ele teria o que comer. É ridículo pensar que eu, com tão pouco no momento, já poderia ajudar aquele homem a não morrer de fome naquela noite. Um simples sanduíche “gostoso e saudável” daria os nutrientes necessários para, talvez, ele suportar mais um dia nas ruas. E é mais ridículo ainda que, pessoas que passam por ele mas não o enxergam, tem um poder aquisitivo muito maior do o meu, mas ao que parece, não tem nenhum peso na consciência. O caso aqui não é colocar um coroa na minha cabeça de “rainha das pautas sociais”, até porque as pessoas que me conhecem sabem que eu sempre fiz isso. Mas o objetivo é questionar por que cada um não faz a sua parte. Não entra em um mercado e compra um pão, um leite, uma banana. Aqueles R$ 10,50 não deixa ninguém mais rico nem mais pobre, parafraseando meu pai. Aqueles R$ 10,50 eu posso gastar em bobagens pra comer, em uma bijuteria, em duas passagens de ônibus. Mas aqueles R$ 10,50 também salvam uma pessoa da fome e da invisibilidade.

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