(Só)lidão

O dia estende-se. A singularidade de um sentimento único de completa angústia toma conta de todo o meu corpo. Sentimento que consome. Exaure. Dilacera. Só. Totalmente só. Caída sobre o carpete puído. O vento gélido sopra sobre a minha pele e lentamente, arrepia cada átomo do meu ser. Falhei. Tentativas frustradas de chegar à algum lugar. Lugar este, completamente inexistente. Imaterial. Incompreensível. Um invólucro inteiramente sufocante me embala. Em meus olhos, é perceptível o brilho da tristeza da aprisionada. Prisão isenta de correntes. Perfeitamente presa sobre os meus próprios temores. Sobre os meus medos. Sobre a alma inteiramente vazia que carrego junto à mim. Carcaça preenchida pelo vácuo. Não sou nada e arrisco-me ao dizer que nunca serei nada. É o momento exato de encontro com o meu próprio eu. A solidão, é de fato, um luxo.

A solidão era tamanha que o que me restara era a tentativa de compreensão do mundo e dos sentimentos mais únicos e aprazíveis existentes. E confesso que essa poderia ser entendida como a minha forma favorita de fuga da realidade. Através das palavras.

Não menos importante, também me agrada as metáforas. As mesmas expressam bem a realidade através de uma certa definição encoberta. E não há nada mais belo do que ser desafiado a interpretar, e a buscar a sua própria visão sobre a realidade existente.

Certa vez, em meio à um livro sobre definições mitológicas, gravei em minha mente com letras garrafais o significado das enguias, que chamara a minha atenção: A enguia representa uma simbologia do desejo de alcançar uma outra vida, ou a indagação da real finalidade de viver.

De certo, agora me identifico. A busca pelo inexistente. Pelo alcance do surreal. Pelo inimaginável. E pelo completo abstrato. A dúvida concreta e presente na rotina. A dúvida de quem sou, e de quem costumava ser. O desejo de ser alguém na vida. De chegar a algum lugar. De saber ser. E saber amar. Encontrava-me completamente perdida. Via-me na figura de uma enguia. Irracional. E incapaz de saber reconhecer o que é viver.

Há tempos, fatos decorrentes me fazem acreditar na minha própria insanidade. As perturbações da minha mente acabam por invalidar a minha existência. Sou puro anseio. E insensatez corporificada. É necessário fazer de mim âmago de uma necessidade física. Íntima, ínfima. E almejar o esquecimento de quem realmente sou por dentro.

Quero fazer parte desse mundo que me cerca, e não somente coexistir. Uma frase deveras peculiar -martela sobre a minha mente- e insiste em me atormentar -ou elucidar- as minhas ideias. “Viver os seus desejos e esgota-los na vida é o destino de toda a existência.” E posso-me dizer crente à respeito disso. Não só crente, como ouso ao idealizar a concretização. Em outro plano e realidade. Por entre o meu infinito particular. Por entre o cais da imensidão sem fim da eternidade. Poeira estelar lançada sob um universo inacabável de decepções. Desilusões. Frustrações. Desistências. Que -esporadicamente- passariam a se materializar novamente.

Após todas essas decorrências, chego à conclusão de que: a vida é uma imensidão que merece ser vivida. -mas como, quando a solidão é o único e indizível alguém capaz de te acompanhar?-

E foi assim, que os meus olhos fecharam-se pela última vez. E minha alma, foi-se de encontro com o meu próprio eu. -novamente-

Em outro corpo. Em outra vida. Em outra era. Outrora, em outra alma. Novamente: pra sempre. Em um ciclo constante e aparentemente infindável. Ali estava eu, em mais uma tentativa frustrada de descobrir a real finalidade do viver.

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