ápice

*

não me dê corda
que eu vou pra marte
nunca mais volto
me entrego aos pormenores
das crateras lunares
me entrego aos bosques
de árvores seculares
me entrego ao gelo
da próxima frente fria
me entrego ao segredo
de uma sereia

não vou conseguir dormir
enquanto não despir
o meu desassossego

não vou conseguir dormir
meu amor, tão cedo

por isso, não me espere
lá fora
ao menos que queira apreciar
o nascer do sol
e louvar as pequenas existências
os bichos que se mostram
apenas na penumbra

ver das flores, a arquitetura
sustentando o orvalho
das horas mais lentas
que o coração frequenta

apenas senta e observa
num desejo de sentir
para além da coisa toda
misturar-se à sombra
ao suspiro
à demora

você não vem?

ainda que me queira
tem horas que me quero
muito mais por perto
tenho medo de me misturar
ao seu lago
porque nele vi meu rosto
e me banhei várias vezes

agora provo
do meu próprio gosto
tem um ritmo
no qual me movo
adentro o cerne
da minha florada
e o beijo me estala
dentro da alma

cheguei a marte
me mande cartas.

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