conto_5

Ao morto não se escreve. Antes da hora mais crucial do dia, eu já escancarava a minha inquietação. Fazia uma anamnese profunda do meu corpo, em frente ao espelho; a roupa abandonada a um canto. Era um dia em que a luz entrava no meu apartamento com facilidade; era um dia que eu via as coisas. A cor púrpura no meu pescoço, latente, era o meu medo subterrâneo indo para a superfície. Aquele pequeno traço, tão pequeno quanto uma pinta, lembrava o seu mordiscar na minha pele. Eu dizia: me devora! Para que houvesse turbulência no meu dia calmo, na água da minha banheira, tão calma. Passo a mão na superfície e a sinto tão fria, como se a minha tristeza tivesse condensado ali. O que há em mim agora? Nada que valha. Nessa parede branca, não consigo contrastar, pois também sou tão branca, procurando uma cor de vestido. A TV está ligada e eu ouço alguém perguntar se sei qual a distância da Terra ao Sol. Não sei, não. Mas se você tivesse me contado, eu saberia agora. Não deu tempo e ao morto não se escreve, repito. Morto, porque de súbito viveu, por um ou dois segundos, ou qualquer tempo suficiente para olhar e ser olhado. Foi ontem que saí, debaixo da chuva, para encontrar o desconhecido: tenho que me dar a felicidade, e ela se esconde em coisas menores. O vapor do chá de hortelã entrando pelas minhas narinas é uma felicidade legítima e eu nunca tinha me dado conta. Nunca tinha me dado conta. Da linha passando pelo buraco da agulha. E quando eu conseguia a linha lá dentro, era felicidade, satisfação. Consegui. Uma xícara de café num bar vazio às cinco horas da tarde e a minha distração quase no limite: eu grudava o açúcar da mesa na ponta dos dedos, levava à boca, lambia. Estava numa distração determinada, pronta para não ceder à qualquer estímulo visual. A sua camiseta azul gritava; a sua barba roçou no meu braço quando você abaixou para pegar as chaves caídas no chão. O tilintar suave das chaves, que você chacoalhou na minha frente e disse: não posso perdê-las de jeito nenhum. Conversou com o barista, velho amigo, que nos ofereceu o frappuccino mais caro do universo. Cacau produzido no sudoeste da Venezuela. Chocolate feito na Itália. De repente, o barista pisca para mim, como quem dá um sinal. Onde você trabalha mesmo? Fui interrompida na minha análise das pequenas bolhas no vidro do copo. Num quarteirão próximo. Céus! Por que vim para cá? O meu dia estava um tédio, é verdade, um tédio. Bocejei. Eu só precisava dormir. Havíamos falado sobre o seu emprego como analista de sistemas, mas não consegui reter nada de interessante da conversa. Mônica, uma amiga de infância, passou por mim e me deu um “oi” caloroso, o dedo em riste na direção do rapaz. Já estou indo. Falei, levantando-me da banqueta alta. Já estamos indo? Ele disse, confuso. Te deixo em sua casa. Moro tão perto. Agradeci ao barista, paguei a conta e andei rapidamente. Também antes, chovia, e pulei uma ou outra poça até chegar do outro lado da rua. Vai chover. Vai chover outra vez. Me despedi como pude do rapaz, no café mesmo, como se fosse tudo parte de um rito. Gesto tão mecânico, da minha parte, que sentia as engrenagens da minha máquina interna. Um olhar muito profundo, o dele. Pensei, abrindo a porta da frente. Meu gato saiu, contornando a minha perna. Olhei para a vizinhança cujas luzes acendiam e as crianças eram recolhidas por uma ou outra mãe muito séria. Minha visão recaiu sobre a figura do rapaz, com as mãos nos bolsos do casaco, andando em minha direção. Ei, Ofélia! Não sou verdadeiramente Ofélia. Foi o nome que me ocorreu. Hamlet. A personagem suicida Ofélia, morreu “de amor”. Ele se aproximou, subiu a escada que dava acesso à minha porta. Você deixou cair o brinco. Fiquei estátua por uns segundos, enquanto ele colocava o brinco na minha orelha esquerda. Quente. Tão quente. Quando vi, estava indo para dentro, o fisgando com o olhar. Agora, só tenho essa marca púrpura no pescoço, lembrando que algo aconteceu na noite anterior. Ainda nua, em frente ao espelho, sentei no chão e abracei as minhas pernas. Agora, sou uma estátua oca, que deixa tudo sempre ir, sempre ir. Quando quero a sensação do amor verdadeiro e do sentimento mais lancinante, há a literatura e o amor romântico trágico. Ouço também música, que me comove, me faz sentir duas ou três lágrimas. Nesse momento, mergulho na banheira que batizo carinhosamente como “Rio de Ofélia”. Pensei em escrever ao rapaz, só uma vez para me certificar de que havia chegado bem a sua casa. Qual casa? Será apartamento? Quem não tem endereço é morto. Mas ao morto não se escreve.
