Conto — Híbrida

*

Quando entrei em seu quarto, tive de atravessar uma cortina de penduricalhos que faziam barulhinhos, anunciando minha presença. O gato passou entre minhas pernas com alguma pressa. Ana olhava-se no espelho. Ela era Orfeu. Na hora que dedilhava sua alma com os dedos, a vida curvava-se atenta. Os barulhos se dissipavam. Os carros se calavam.

— Ninguém bate antes de entrar. Tive de tomar uma providência. — disse, meio azeda.

— Como você está se sentindo? — perguntei, encarando-me no espelho, atrás dela. Estava toda inquieta, o dia era quente.

— É uma pergunta difícil. Se estou bem ou mal? Acho que nenhum dos dois. Só estou. Como me encontrou aqui?
 
 — O endereço na carta.

— Ah. Por que ainda vem me ver, Tereza?

— Não sei. Gosto da sua companhia. Gosto da intimidade que nos permitimos.

— Eu não ligo. Tantos já foram embora. Tem gente que não lembro nem o nome. Às vezes me vem um rosto, uma memória de vários anos. Não faz mais diferença. — terminou de ajeitar os cabelos. O espelho exibia seu corpo todo. Uma postura confiante, uma espinha cada vez mais ereta. Não parecia a menina de doze anos que morria de vergonha de olhar nos olhos. Agora, ela até encarava tempo demais. Não era algo automático, sem alma. Ela realmente olhava, espreitava, buscando adivinhar.

— Você está meio perdida. — disse, enfim. Não poderia estar mais certa. Em seguida, me estendeu uma xícara de café, que derramou de um bule azul fumegante.

— Perdi meu emprego, Ana.

— Não quis dizer nada de emprego, Tê. Você está perdida de verdade. É coisa aí de dentro. — Sentou-se num banco de madeira, apoiando os pés para dentro, as mãos nos joelhos. O quarto era muito branco. Ana brincou com essa minha observação. Disse que era seu manicômio. Alguns objetos estavam no chão. A TV estava no chão. Nenhum móvel a não ser uma mesa e armário na cozinha. E o banco, claro, onde se sentava de pés descalços, os cabelos partidos ao meio caindo sobre os ombros desnudos. Os dedos compridos tamborilavam nos joelhos, impacientes. Será que ela queria que eu fosse embora? Engoli o café, de cabeça baixa, olhando de vez em quando pra cima. Ela me encarava de volta, com um rosto suave. Parecia ver tudo como era. A vida como mero reflexo de um espelho. Ela era o espelho.

— Deus me livre parecer triste. — disse, debochada.

Quando a encontrava, o quarto refletia seu eu. Formavam os dois uma unidade fácil de ser compreendida, capturada.

— A brancura tem a ver com o meu caos. Quando está tudo muito simplificado aqui fora, aqui dentro é uma confusão. — apontou para o peito, franzindo o cenho.

Apertei meu casaco que segurava contra o peito, observei minha tentativa de parecer limpa, organizada, nos últimos tempos.

— Sempre levo uma bofetada na cara.

— O que?

— Quando te vejo. Você está pronta para me alfinetar. Depois de nossas conversas já fiz loucuras.

— É você agindo, não sou eu. Se bem que ontem estava me olhando no espelho e me veio uma memória afetiva. O botão da camisa do uniforme. Dos tempos de colégio, Tê. Quando a gente não tinha preocupações e o único medo era de sermos pegas por fumar escondido. Mas, sabe, eu não consigo viver de outra forma. Tenho medo de ficar na mesma. Por isso mudo tantas vezes. As pessoas não entendem. Sou nômade, está no meu DNA, na minha ancestralidade. Na verdade, isso tá dentro de todo ser humano. Uma vez li em alguma parte que o cinema, a literatura, a arte em geral, é uma maneira de descarregar a nossa vontade insana de movimento. A gente não migra de um lugar pr’outro em busca de alimento ou água. A gente anda para tomar um ar. Anda para não enferrujar o corpo. Anda para não morrer de tanta energia dentro. Tereza, temos que dissipar nossa energia. Por isso, danço sempre que posso. — Fez um gesto com os braços, como se conduzisse alguém na dança.

— O que você tem feito? Você sabe… para sobreviver?

— Estou pintando uns quadros. Fazendo uns bicos de garçonete. Às vezes cuido dos animais do vizinho. Se bem que ele me parece um dos animais de vez em quando. — sussurrou, rindo.

— Ainda sai com Sofia?

— Sofia… Sofia… Tanto tempo não a vejo. Tem um retrato dela naquele canto. Eu sei, eu sei que não parece. É que só consigo pintar sensações. Sofia tem uma energia verde, um frescor. Ela se mandou para Amsterdã.

Aspirei o cheiro de café vindo da xícara, fechei os olhos, meditativa. Ela era uma mulher na qual eu me inspirava. Uma implacável coragem de ser. Eu estava há uns anos num emprego horrível, que frequentava forçosamente. Precisava da grana para meus momentos de solidão. Precisava comprar folhas e mais folhas para escrever.

— Você ainda não publicou nada? Parecia ter tanto potencial, quando éramos adolescentes. Escrevia cada coisa linda, profunda…

— Ainda não. Ando meio frustrada, sabe? Parece que sempre escrevi por ter medo de viver. É uma resposta à minha falta de sagacidade. Pessoas como você é que deveriam escrever de vez em quando, Ana. Vivem tanto! Imagina o que sairia…

— Não tenho imaginação. Acho que escreveria tudo preto no branco. Não tenho habilidades para passar a mão na cabeça do leitor. Dizer: vai ficar tudo bem, meu querido. Eu logo iria disparar: se cuida que a vida é uma merda.

Eu ri, abaixei os olhos. Quando vi, estava chorando.

— Outra vez? Você só me encontra quando tá mal.

— Talvez eu sempre esteja mal.

— Não, não está. A vida é uma merda sim. A gente reconhece isso e faz nosso melhor. — me consolou, pegando meus ombros. O vento entrou numa rajada pela janela, movimentou umas folhas no chão, me deu um arrepio.

— Ana, o que você acha de mim?

— Que pergunta é essa?

— Ah, esquece.

— Você viu? Acabou de desistir de me convencer. A última carta foi verdadeira, a mais verdadeira de todos os anos, Tereza. Todos os dias me lembro de você, com alguma apreensão.

Ainda estava sentada no chão (desde que cheguei a mirava de baixo, ela sentada no banco, eu a admirando). Nossas conversas eram muito preciosas. Conheci Ana logo depois de sair de casa e, desde então, não saía da casa dela, seja lá onde ela escolhesse morar. As cartas que ela me mandava denunciavam sua localização, me faziam a buscar, ansiar a ida, frustrar-me com a volta. Ana inclinou-se em minha direção, os dedos compridos no meu rosto. Ia me dar um beijo quando a cortina de penduricalhos fez um barulhinho.

— Alguém está entrando. — disse, esperando o sujeito aparecer. Parecia uma estátua esguia, calma.

Era o dono do imóvel, um senhor baixo, meio calvo, de prancheta na mão.

— Senhora, já está tudo organizado? — Ana congelou e me levantei.

— Está sim.

— Eu ouvi outra voz. Alguém mais está aqui? Temos que esvaziar o apartamento para o novo dono. Ele está meio impaciente lá fora.

— Não. Era só eu e meio rádio, logo ali. — apontei o rádio no chão, um dos poucos objetos fora da caixa. Ele me olhou de cima a baixo, conferindo se eu era uma mulher normal, pelo menos em aparência.

Ana desaparecera. Eu sempre a encontrava dentro do espelho, mas ele quebrou-se na mudança. Era a terceira vez que mudava de apartamento naquele ano. Ia procurar outro emprego, outra atmosfera, outro lugar, outra mulher como Sofia.