De onde eu vim

https://baile-de-ilusao.tumblr.com
Abriu os dedos. Absolutamente calmo, absolutamente claro, absolutamente só enquanto considerava atento, observando os canteiros de cimento: será possível plantar morangos aqui? Ou se não aqui, procurar algum lugar em outro lugar? Frescos morangos vivos vermelhos.
Achava que sim.
Que sim.
Sim.
(Morangos Mofados, Caio Fernando Abreu)

Ando sonhando em claro, atormentado pelas possibilidades da vida. Sabe, até ontem eu mal sabia que tinha uma corrente elétrica perpassando meu corpo toda hora todo momento me fazendo respirar e de vez em quando vomitar uma paixão arrebatadora. Sabe, até ontem eu ainda não tinha atravessado o Estreito ou aquela porta, que me leva a outro continente, ou a outra vida, menos morta. Nesse exato momento alguém nasce e eu espio de longe e de dentro, porque sinto, deste novo rebento, um sopro. Eu nasci também. Nasci meio tarde, minha coluna vertebral já está formada, bem como meu crânio, e todas minhas lembranças e medos. Eu lhe deixo um relato mais próximo do que é nascer,

Na noite de nascimento de …
ao mesmo tempo que ele escutava o som gelatinoso
da placenta de onde era arrancado
e depois o som da passagem pelo canal uterino de sua mãe
e depois o som do primeiro toque em sua cabeça
e depois o som de seu próprio grito
o grito que inaugura a festa*

Não tive dia específico pra nascer, depois de algumas experiências sensoriais me apontarem a beleza e violência do mundo, tudo de uma vez. Sabe, eu costumava escrever mais de dois mil caracteres por dia. Ficava feliz e vibrava. Lindas palavras, pétalas de rosa no olho do furacão. Dentro de mim um incômodo, uma náusea, de quem quer ser filho do mundo e não consegue de jeito nenhum. Minha mãe me pariu no dia 9 de fevereiro de 1995. O mundo me pariu ontem mesmo, pela manhãzinha, continua parindo, em fortes contrações. Tem dias que não quero nascer. Talvez hoje fosse um deles. Certifiquei-me dos erros. Porra. Eu erro toda hora, até quando quero acertar. Às vezes só quero sentar e ficar sem fazer nada, olhar pro teto, falar: que merda de dia. Depois tomar um copo de água sem respirar e soltar um choro agudo, tremer as pernas em cima da cama, apertá-las contra o peito. Às vezes só quero me reconhecer como um ser humano em espécie, lembrar as mil tentativas de se explicar a natureza humana, todas falhas e contestáveis. Sem concluir nada, me lembrar que o tempo é hoje. Sempre hoje, sempre agora. E minha ansiedade me faz respirar embaixo d’água, voltar à tona algumas vezes. Quando volto à tona, a vida vaza por meus olhos e boca. Choro. Acho que nasci faz pouco tempo. Eu sei que eu disse que a gente nasce todos os dias. Mas tem dois nascimentos que marcam a vida em antes e depois. Nasci da minha mãe. Nasci de mim mesma. Habitava minhas entranhas. Ainda habito, mas uma parte de mim está fora, escancarada, e dizem que ando muito estranho porque eu sou eu mais do que nunca. Eu ando estranho. Ainda bem. Estou sofrendo, mas a minha felicidade é em igual medida. Nossa, ela tem uns olhos nos quais me perco nos quais me acho nos quais me tenho. Nossa, olha pra essa criança que sobe a árvore não vai cair daí tem muita coisa bonita ainda pra ver no mundo. Nossa, como você me olha e me conta o que acha disto daquilo parece que estamos muito bem atados por um fio invisível. Nossa, a sua voz é tão gostosa eu queria ser estrangeiro pra não entender nada e só ouvir e só ouvir. Nossa, acho que gosto de você mas acho que também hoje gosto de mim. Hora de colher os morangos sem medo. Pra quê guardar na geladeira, pra quê esquecê-los quando eles estão ali convidativos salivando a boca no inconteste agora? Hora de colher os morangos? Tem uns morangos ainda verdes. Silencio.
Acho que não.
Que não.
Por enquanto.

*Matilde Campilho