Gente nasce pra ser gente

Julia e Winston, do filme “1984”.

Acordei em retirada
Era preciso iniciar na labuta
Pr’além do sol que treme nas janelas
Trazendo nuances da rua.

Acordei em retirada
Era tempo de ver a passarada
Num céu mais ou menos azul
Relatando o cinza pra essa gente
Que nunca sabe o que deveras sente.

É que as reflexões passam a ser
De dois segundos em frente ao espelho
No horário do expediente.

O banheiro é um quarto estéril
Por vezes, fétido, onde não mentimos nossa anatomia;
Lembramos da genitália, há tanto esquecida.

Hoje você me fodeu, e olha, eu não sei
A cor dos teus olhos nem o formato deles — 
Você pode me escrever uma carta de amor?

Ah, não me mostre muito afeto
Porque ele é re-vo-lu-ci-o-ná-ri-o
Vai me fazer gritar quando me cuspirem a cara
Vai me fazer chutar aquela maldita máquina.

Ah, não me mostre muito afeto
Porque afeto se esconde por trás das persianas
E foi só um beijo
Foi-só-um-beijo
É o suficiente pra que eu continue a andar.

Veja bem, é preciso os momentos de amor regulamentar
Muito afeto não convém, te faz muito feliz e fode com o sistema;
Pouco afeto não convém, te faz se matar e isso é blasfêmia.

É preciso um meio termo, um afeto pouco terno.

Olhei pra ti, foi um desacato à autoridade dos mortos
Olhei pra ti, e te amei num só ato, fiz-me gente
Fiz-me vasto.

Tenha medo dos vivos, meu pai me disse,
Tenha medo de quem não ama, eu te disse.

Nós temos vivido com uma coragem confessa
Sentindo o sol que bem fundo nos atravessa;
A pele grita, transpira, contesta
Qualquer sentimento que se anuncia
Na mais microscópica célula.

Eu-te-amo.

O tremor foi transcontinental
Vibrou do oceano, todo o sal
O vento se permitiu outras direções
E a natureza gemeu sob fortes contrações.

Nasci.