manifesto do amor-próprio ou: a beleza se move

“afine diariamente a pontaria e reze para que nunca seja necessário o disparo.” (a primeira hora em que o filho do sol brincou com chumbinhos, matilde campilho)

Michael Kenna

nem toda sorte é por acaso
nem toda canção se dança descalço –
foi por isso que eu te disse
para botar os sapatos antes de sair.

sol que vejo, olho pro espelho
uma mecha do meu cabelo
cai no meu rosto, enfim

ouço o uivo de um coração selvagem
prestes à ir para o combate
está lúcido, forte e pulsa
como animal de coragem súbita
sobrevive até o final

retumba no barulho
dos pássaros acordando
da manhã se dilatando
aos poucos e aos murmúrios

quero estar com os olhos bem abertos
quando a morte chegar e me enlaçar
em seus braços feitos de ar
numa dança sem sapatos
numa paz sem obstáculos

eu me dou a mão e atravesso
um campo escuro
a lâmpada na minha garganta
faz ver e gritar o mundo
 
é preciso anunciar o amor
todas as horas do dia
em meio aos protestos de ódio
de letárgica covardia
 
meus olhos são outros
ao findar do dia;
em tempos mornos
é possível queimar sem dor.
 
eu embrulho um tempo dourado
mas nunca abro
ele pode se desfazer
tão logo eu anuncie sua existência
 
deixe adormecer quando convém
seu espírito agitado e voraz:
das coisas que existem agora
existirão uma vez mais?

nesse segundo de cólera
eu espio do lado de fora
o meu exoesqueleto se desmonta
sou criatura gelatinosa
 
tão frágil, pequena, solitária
quase não consigo me reconhecer
nos olhos tremeluzindo no espelho
negros, bem atentos
ao que nem vai acontecer
 
eu mesma desaconteço nesse instante:
como querer um começo
se vejo o fim logo adiante?
 
o que é o fim senão uma narrativa
contada de mim para mim?
por que estou tão convencida
daquilo que não compreendi?
 
por isso, eu te digo,
é necessário caminhar sem imaginar muito,
pisar as pedras, as vigas e as frestas
com os pés, todos os dedos, os calcanhares,
entender de perto o farfalhar das árvores
 
porque elas sabem que a beleza se move.