poesia_50

Ode à Hilda Hilst

Em ti: não entendendo

E a face, buscando.

O olhar ferino, em fendas

Auscultando.

_

A tensão das cordas

Me puxando para o teu verso:

Profundo, magnético,

Incinerando horas.

_

E pela não compreensão

Te procuro, eterna,

Para que haja um clarão

Naquilo que não flameja.

_

Em ti, estar sempre atenta,

Como quem revolve uma ideia

Mastigando, tão lenta,

Roçando na fera.

_

Tu escancaras o meu silêncio

Bates a porta, ao fechar;

Eu, que era de vigas e cimento

Agora tenho o visco do ar.

_

Em ti: não entendendo

E me fazendo: perguntante;

Qual tua face estou vendo?

A face que menos constrange?

_

Ou a face que em mim se faz

Cada vez mais ressonante?

_

Quando te leio, de fato te permeio,

Te caminho verdadeiramente?

_

O meu entendimento é amálgama,

Coisa rara, espécime única;

Porque na finitude dessa estrada

Eu-te-li a alma fúlgida.

_

Alma que desvanece

E, tu dizes: o mundo esquece.

_

Mas me mantenho a te estranhar.

_

É possível, assim, enganar a Morte,

Tua velha amiga incauta:

Porque tu ainda não nasceste em mim

E, aos poucos, te formo a alma.

_

(E cada cílio do teu olho.)

_

Em ti: não entendendo

E amando, em assombro.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Gabriela de Oliveira’s story.