poesia_8

Ode à Matilde

não sei o que dizer

porque tudo soaria monótono

diante da bestialidade da vida

que tu, poeta, me dita (medita)

quando deito tua cabeça no colo.

uma transfusão de rosas

de tu para mim, assertiva

me dá a certeza sem provas

da invasão que é poesia.

escute lá

isto é um poema

não fala de quase nada

é tu quem lê

e quem fala.

se alguém me ler

será um sopro

dentro do olho

vai melhorar?

não vai melhorar.

talvez te faça alcançar

um décimo de amor

33 fahrenheit de calor

uma demora de segundos

um franzir de cenho

e um engolir à seco.

tu me faz lembrar

do que não existe

não em mim

não em minha nudez

desamparada.

na minha pele

um ornamento

me indica

um esconder de alma.

tento em vão

falar de coisas diminutas

da manada de cervos

das virgens confusas

da menina que trabalha

na caixa registradora

no lago drenado da floresta

americana.*

também não procuro surtir efeito

nem prestar a esse século

alguma conclusão;

servirei ao não cálculo

do universo

(e tampouco minha prole

dirá sobre a esfera azul).

porque um dia eu rasgo

o tecido celular do rosto

e realizo um sorriso constante.**

por enquanto eu espero fevereiro

para ter uma convicção.

a lâmpada estourou

sobre a minha cabeça:

fevereiro é a crença

na erupção.

*”Príncipe do Roseiral”, Matilde Campilho

**“Rio de Janeiro — Lisboa”, Matilde Campilho